terça-feira, 30 de agosto de 2011

Aviãozinho

Nem sempre é fácil enxergar as pessoas. Numa cidade grande então, há tanta gente andando nas ruas que acaba sendo tão difícil destacar-se no meio da multidão atarefada quanto prender o olhar num só indivíduo por mais de dois segundos. Também é comum enxergar a rua como um mero local de passagem em vez de um local de encontro entre as pessoas. Afinal, estão todos tão ocupados indo para seus respectivos trabalhos reuniões parentes encontros distrações que não há tempo para sentar relaxadamente com os pés para o ar sem sentir que se deveria estar em outro lugar fazendo outra coisa qualquer. Assim era a Encruzilhada dos Pinhões nos dias que se seguem.

Num dia qualquer, a Moça se sentou num banco da Praça Central. Não era um dia extraordinário nem fora do comum em nenhum sentido. Não era aniversário de ninguém que ela conhecesse, ninguém havia morrido, não era feriado nem final de semana e não havia evento algum que fugisse da rotina de sua vida. Tampouco era incomum que ela estivesse sentada naquele banco daquela praça àquela hora do dia; entre a faculdade e o emprego, aquele era o único ponto de parada onde poderia comer o sanduíche feito em casa às pressas com os restos da janta do dia anterior, como sempre fazia.

Naquele dia tão corriqueiramente comum, porém, um pequeno detalhe desencadeou uma curta série de eventos extraordinários e igualmente pequenos.

A Moça suspirou.

E, por causa do suspiro, a Moça fez algo que nunca havia feito ao se sentar naquele banco daquela praça àquela hora do dia. Ela levantou os olhos do seu sanduíche meio comido para o que acontecia a sua volta na praça.

Até um segundo antes deste momento, sua mente estava mergulhada em seus próprios problemas preocupações prazos tarefas a cumprir. Um segundo depois, seu corpo relaxou e o véu que cobria os olhos da sua mente dissolveram-se como uma fina camada de gelo diante de um raio de sol. E ela enxergou todas as pessoas que passavam pela praça, todos os pombos lutando pelas pipocas que o pipoqueiro deixava cair ao encher os pacotes de papel pardo, todas as folhas de grama que se agitavam com o vento encanado que vinha dos prédios em volta. A Moça percebeu tantas cores, detalhes, cheiros e sons naquela praça durante aqueles poucos segundos que sucederam-se ao suspiro que era como se o tempo tivesse parado para ela. Ao ver a pressa e cegueira de todos que passavam por ali, ela sentiu os grilhões de sua própria rotina caindo de seus braços e pernas como se tivessem se transformado em areia.

Porém, enxergar a pessoa que ela fora até aquele momento nas pessoas que ali passavam não foi a coisa mais incrível que a Moça viu. Se não tivesse erguido a cabeça naquele exato momento, ela não veria uma pessoa vestida com roupas de palhaço preto e branca, usando um chapéu com múltiplas pontas terminadas em guizos, tentando distribuir folhetos coloridos para os passantes. Também não repararia que todos, sem exceção, o ignoravam e não pegavam nenhum folheto sequer.

Mas o mais extraordinário de tudo ainda estava para acontecer! E começou quando o olhar daquele Bobo-da-Corte encontrou o seu e caminhou na sua direção. Normalmente ela teria desviado o olhar e fingido que não era com ela, mas alguma força maior que sua consciência fez com que ela continuasse sustentando o contato visual até que ele parasse na sua frente e lhe oferecesse um dos folhetos coloridos que segurava.

- Nã-não, obrigada... - ela respondeu automaticamente, pois nunca aceitava folhetos na rua, independentemente do que fossem.

O Bobo-da-Corte colocou as mãos fechadas na cintura e inclinou a cabeça, sorrindo ao falar: - Sua boba! Devia pegar e fazer um aviãozinho. - Então, oferecendo outra vez o folheto a ela, insistiu: - Ande, pegue. É de graça e todo mundo merece.

- Obrigada... - a Moça disse, ainda surpresa com as palavras do Bobo.

Assim que pegou o folheto, ele se virou e continuou seu caminho oferecendo aqueles folhetos às pessoas por quem passava. A Moça observou ele se afastar até não conseguir mais vê-lo. Só então olhou para o folheto que agora estava na sua mão. Ao lê-lo, seu rosto se abriu num largo sorriso e ela até deixou escapar um breve riso, abafando-o em seguida com a ponta dos dedos sobre os lábios.

O desenho era, na verdade, letras grandes e muito coloridas onde se lia a simples e curta frase: "Tenha um ótimo dia!" Era até irônico que quase ninguém aceitasse pegar um daqueles folhetos.

Então decidiu fazer o que o Bobo-da-Corte havia lhe falado. Dobrou o papel com cuidado na forma de um aviãzinho como não fazia desde seus dez anos de idade e atirou-o para o alto. Ele passou por cima das árvores mais próximas e ela o perdeu de vista, mas o sorriso continuava em seu rosto.

Do outro lado da praça, sentado num dos bancos de madeira, um Rapaz consultava a sua agenda tentando organizar as tarefas da semana quando um aviãozinho de papel caiu em seu colo...