terça-feira, 2 de agosto de 2011

A Libélula e o Espelho

Foi numa tarde quente de verão que a Artífice de reflexos ouviu um barulho estranho vindo da sua loja. Vivia no andar de cima, de onde podia ouvir claramente o sino sobre a porta que anunciava a entrada de algum cliente. Por isso era estranho ouvir algum barulho sem que antes tivesse ouvido o sino.

Desceu as escadas vagarosamente, soltando uma baforada de seu cachimbo a cada dois ou três degraus, sempre chegando mais perto do som, mas sem conseguir defini-lo. Só quando andou entre as peças de seu trabalho árduo - espelhos dos mais diversos formatos, cores e reflexos - que ela viu que uma grande libélula voava em sua loja. Porém, quando se aproximou, o animal voou para longe e fugiu por uma das estreitas janelas no alto da sala que havia sido deixada aberta por causa da tarde abafada. A Artífice então voltou a seus afazeres.

Porém, no dia seguinte, ouviu o mesmo som. Desta vez, antes de andar por entre os espelhos, observou do alto da escada o que a Libélula estava fazendo para causar aquele estranho barulho abafado. O estranho som era as repetidas tentativas do animal de entrar num espelho que estava coberto por um fino tecido cinza brilhante e transparente. Quando a Artífice tentou se aproximar como no dia anterior, a Libélula voou para longe outra vez, mesmo sem o menor sinal de perigo. A Artífice sorriu ao ver qual era o espelho em que a Libélula tentava entrar, e falou consigo mesma:

- Ela está tentando passar pela porta sem abri-la. É claro que não vai conseguir assim.

Nos dias seguintes, a loja de espelhos recebia alguns clientes no momento em que a Libélula entrou. Mal ela fez seu caminho até o espelho, partiu em disparada para a janela mais próxima, desviando das pessoas. Algumas pessoas viram a sua passagem e elogiaram suas cores vivas, outras meramente sentiram um vento com o bater de suas assas apressadas. Mas a Libélula não parou até chegar na janela, de onde espiou curiosamente por alguns segundos antes de sumir de vista.

Um dia, porém, a Artífice decidiu mudar seus espelhos de lugar. A Libélula entrou na loja de espelhos desconfiada, pois tudo estava diferente de como ela se lembrava. Demorou um pouco para achar o espelho que queria, e então retomou a sua exaustiva tarefa de tentar atravessá-lo. Viu também a mulher baixa e gorducha que tentara se aproximar dela nos outros dias, sempre soltando fumaça por uma peça de madeira. Mas dessa vez ela não a incomodou, pois limitou-se a ficar olhando do alto da escada.

- Você está olhando na direção errada - disse a Artífice, depois de observar a insistente Libélula por quase uma hora. Em vez de escutar o que ela disse, a Libélula fugiu assustada pelo som grave e rouco de sua voz.

E aquela cena se repetiu por mais três dias, até que a Libélula conteve seu impulso de sair voando assustada. Ela se afastou voando do espelho que tentava atravessar, pensando vagamente que a mulher deveria estar doida. Do outro lado do espelho não via refletida meramente a sua imagem, mas um campo com o qual ela sonhava e ansiava todos os dias, repleto de outras libélulas que ela tinha certeza que gostaria de conhecer e brincar, talvez até viver junto. Para onde mais ela haveria de olhar?

Porém, alguma coisa na voz da mulher continha tanta certeza, tanta verdade, que ela respondeu ao aviso e olhou para o lado. O que viu foi o seu reflexo em um outro espelho, mas nele ela era gigante e grotesca, um monstro com asas. Isso a fez fugir outra vez. E a Artífice se limitou a deixar a janela aberta e esperar mais um dia.

Demorou mais alguns dias para que a Libélula retornasse. Ela se dirigiu ao seu espelho favorito, mas antes de tentar entrar naquele reflexo da realidade que ela desejava, parou para olhar em volta. Agora percebia que alguns espelhos haviam sido posicionados de forma a criar um semi-círculo, todos voltados para o seu espelho de forma a poder refletir a imagem que ele projetava. E ela olhou um por um, mesmo que a imagem a assustasse e chocasse.

- É preciso que a sua verdade seja equivalente à verdade do reflexo que almejas - disse a Artífice. A Libélula ouviu, mas só entendeu depois de olhar rapidamente para cada um dos espelhos a sua volta.


Cada um deles refletia a sua imagem, mas sempre de uma forma diferente. Algumas eram belas, outras nem tanto, em algumas estava cercada por um sem-número de libélulas, ou até criaturas estranhas, e em outras estava completamente sozinha. E não havia um reflexo igual a outro. E nenhum deles a agradou. Mas ela teria que encontrar um reflexo que fosse a verdade se quisesse entrar no espelho com véu de prata.

A Artífice podia ver claramente a aflição do pequeno animal, voando de um espelho para outro, recuando diante de uns ou se demorando a olhar para outros. Foi então que, para sua surpresa, o animal olhou para ela - ou pelo menos pareceu olhar, pois ficou parada no ar voltada para sua direção - com um óbvio ar de desafio e determinação. E em seguida disparou a voar entre os outros espelhos da loja. A Artífice havia habilmente arranjado para que todos refletissem ao menos um pedaço do espelho com véu de prata, mesmo os que não faziam parte do semi-círculo, e a Libélula percebera isto.

Depois de percorrer metade da loja, a Libélula finalmente parou de voar, zunindo no ar como que hipnotizada. Parou de frente para um empoeirado espelho oval em que a sua imagem era substituída pela de uma moça de cabelos escuros e cacheados e olhos de jabuticaba. Ela ficou incontáveis minutos olhando para o seu reflexo, e então fez um mergulho direto para o centro do espelho. Em vez de se espatifar contra o vidro, ela foi absorvida pelo espelho e ficou lá até que a Artífice fosse ver o que havia acontecido.

- Quero viver assim - a Libélula-moça falou, e a Artífice carregou o espelho oval até o espelho com véu de prata.

A Libélula viu o seu reflexo de moça no outro espelho. Mesmo sem saber se aquilo funcionaria, arriscou esticar o longo e desajeitado braço humano até o outro espelho. Quando viu que funcionou, afastou o véu para o lado. O reflexo que ele mostrava era diferente agora: em vez de outras libélulas, via uma infinidade de outras criaturas, muitas delas parecidas com a forma que tinha agora, outras nem tanto. Apoiando-se na moldura do espelho oval, ela se içou para fora do reflexo e imediatamente entrou no outro. A Artífice fechou o véu depois de sua passagem e sorriu de volta quando a Libélula-moça lhe acenou em despedida.

- O espelho da Realidade só pode ser atravessado com a Verdade Pessoal, e essa verdade é sempre uma escolha. Sem essa escolha, você teria se perdido lá dentro, minha pequena amiga. Espero que isto a ajude a viver uma boa Realidade.