sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Quase Rei

O Rei havia perdido sua coroa há muitos anos e com ela o seu reino. Procurou-a em vão pelos quatro cantos do mundo. Até tentou fazer uma nova, mas o Ourives Magnífico, aquele cujas mãos habilidosas haviam forjado as coroas dos maiores reis do mundo, se recusara a fazer uma coroa para alguém sem reino.

Mas isso estava prestes a mudar! Já que não podia ter seu reino de volta enquanto não encontrasse a sua coroa, iria fundar um novo reino e, assim, mandar o Ourives Magnífico fazer uma nova coroa.

Para a capital de seu novo reino, escolheu um pequeno vilarejo que começara a se formar a pouco mais de dois anos e ainda não tinha governante. Por enquanto era a única cidade do reino, mas tinha certeza de que mais súditos seriam conquistados com o tempo. Um reino não podia ser erguido apenas com um punhado de pastores de ovelhas.

O Rei subiu num dos bancos da praça, que mais parecia um largo árido e mal cuidado na frente da igreja, e começou a chamar todos os seus súditos. Todos pensavam que ele era louco, mas isso não impediu que uma multidão se formasse em volta dele. Eventualmente, boa parte daqueles curiosos concordou em chamá-lo de Vossa Majestade. Como? Oras, com a tradição mais antiga de sua laia, conhecida instintivamente desde o nascimento destes seres que chamam a si mesmos de "governantes do povo": promessas e títulos.

Os novos súditos do Rei constituíam-se principalmente de agricultores e pastores, então suas promessas eram "Quando eu for seu Rei, os campos serão irrigados" e "Quando eu for seu Rei, os pastos serão mais verdes". Já os títulos limitavam-se a "Mestre de Obras do Castelo", "Artesão da Glória Real em Mármore" e "Carpinteiro do Trono Real". E as pessoas faziam o que ele pedia, pois tais títulos vinham embutidos com a promessa de dinheiro.

Os dias se passaram até que todos os adultos da pequena vila estivessem atarefados em construir o palácio de Sua Majestade nos arredores do vilarejo. Até que trouxeram o primeiro problema real. Um humilde trabalhador tirou o chapéu de pano diante da figura do Rei com suas vestes coloridas e pomposas sentado altivamente em seu trono meio esculpido, com o artesão ainda em suas costas.

- Majestade, com todo o respeito... o que será feito da crianças?

- O que tem as crianças?

- Com todos trabalhando para erguer seu castelo, não sobrou ninguém nas escolas. Não há ninguém que as ensine a ler, escrever, e as outras coisas importantes da vida.

- Mas vocês estão trabalhando para um bom motivo! E, se terminarem meu palácio antes do tempo previsto, talvez consigam terminar a arena em tempo de ver as lutas de gladiadores. Antes eu teria que selecionar alguns de vocês como gladiadores, é claro, mas isso é um projeto para o futuro.

- Até lá, quem vai ensinar as crianças?

- Oras, elas que aprendam sozinhas! Que se virem! Quem sabem assim possam ser úteis para alguma coisa em vez de só me dar trabalho.

O humilde trabalhador colocou o chapéu na cabeça com um olhar desapontado e reprovador. O carpinteiro atrás do meio trono parou o que estava fazendo com a mesma expressão no rosto. Todos os trabalhadores que estavam empilhando pedras para erguer as paredes da sala do trono pararam de trabalhar. Sem uma palavra sequer, todos deixaram o recinto, deixando para trás um Rei atônito e confuso.

- Esperem! Voltem! Eu dobro o salário de vocês, de todos! Qual o problema? Por que pararam de trabalhar?

O trabalhador que pedira a audiência parou onde deveriam estar as portas do salão ainda incompleto e olhou para trás num último ato de misericórdia.

- Se você não sabe para quem governar, não deveria se intitular rei com tanta insistência. No dia em que der prioridade às coisas certas, só então será rei.

Assim, todas as pessoas humildes partiram. E o Rei ficou mais uma vez só em seu meio palácio, sentado em seu meio trono sem reino para governar.

- Mas eu sou o Rei...