sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Cheiro de Progresso

Há muitos quilômetros de distância o Viajante podia ver os contornos de centenas de prédios altos, todos muito próximos uns dos outros. Supôs que fosse uma grande metrópole e que aquele era o seu centro. Qual não foi seu susto ao adentrar a cidade e perceber que toda ela era como o que ele havia visto na distância.

A estrada de terra batida que percorria mudou bruscamente para paralelepípedo poucos metros antes de passar pela primeira casa da malha urbana. Mas mesmo ali, nos limites do território, haviam poucas casas. A maioria se encontrava espremida entre prédios baixos residenciais, que iam crescendo à medida que se caminhava na direção do centro. Os prédios altos, cada vez com usos menos identificáveis, se mesclavam com fábricas nas quadras maiores. Milhares de chaminés subiam aos céus, espalhando uma fumaça tão densa no ar que chegava a formar uma fina neblina no nível do chão. No centro da cidade em si, os prédios davam lugar a verdadeiros arranha-céus, ocupados pela elite burguesa do lugar e por grandes empresas e corporações.

Mas não era só nas alturas que a cidade se apinhava. Nas ruas, um número incontável de pessoas andava atarefada para seus trabalhos, voltando de seus trabalhos, executando trabalhos. Construções novas se erguiam no lugar de antigas, cada vez mais altas. Carruagens puxadas por cavalos brigavam por espaço com as novíssimas carruagens motorizadas, que por sua vez brigavam por velocidade nas ruas cheias de lama e pessoas.

O cheiro do lugar era uma mistura de esgoto, suor e fumaça, que turvavam tanto a visão quanto os pensamentos. As pessoas esbarravam nos ombros umas das outras e nem se davam ao trabalho de olhar para a outra para se desculpar ou resmungar. Grupos de crianças sentadas nas soleiras das portas se revezavam pedindo dinheiro dos passantes, que davam-lhes qualquer conteúdo que tinham no bolso quando alguma coisa sequer, fossem trocados ou papéis de bala. O Viajante foi imediatamente tomado por uma repulsa desesperada daquela cidade, e ainda nem sabia como seus habitantes a chamavam para amaldiçoá-la em seus pensamentos.

Atingiu o ápice de sua indignação diante de um cenário tão indigno da vida humana quando foi abordado por um rapaz pouco mais novo que ele que dizia conhecê-lo de algum lugar. O Viajante, ingenuamente, parou para corrigi-lo, dizendo que havia acabado de chegar na cidade. O jovem então tirou um cano de metal de dentro do longo casado que vestia e nada educadamente pediu todo o dinheiro que o Viajante tinha. Ultrajado, o Viajante se recusou a lhe dar o dinheiro. A última coisa da qual se lembraria mais tarde era do cano se aproximando rapidamente de seu rosto.

Acordou horas mais tarde, com a noite já muito avançada. Uma voz feminina rouca o chamava, e algo chacoalhava seu ombro. O Viajante estava embolado num beco escuro, atrás de latas de lixo, quando abriu os olhos. Viu diante de si uma mulher rechonchuda com um vestido decotado muito colorido e também muito maquiada. Apalpou os bolsos e ficou surpreso ao encontrar sua carteira ainda no lugar, mas o pouco dinheiro que carregava consigo havia sido levado pelo ladrão. A mulher se apiedou dele ao perceber o que havia acontecido.

- Você foi assaltado. É um forasteiro? - o Viajante concordou com um movimento de cabeça, ainda um tanto atordoado com a experiência. - A cidade está cheia de trombadinhas, eles normalmente vão atrás das pessoas que parecem perdidas ou desorientadas. Venha, vou fazer um curativo para a sua testa e lhe dar uma refeição quente.

O Viajante passou então a mão pela testa e ela voltou vermelha. O sangue não era muito, mas havia escorrido por todo o lado do seu rosto. - Obrigado, senhora.

A mulher riu, fazendo os enfeites de seu vestido e cabelo tilintarem.

- Não sou nenhuma senhora, mas pode se dizer que tenho muitas filhas. Venha, você está pálido, precisa comer alguma coisa.

A mulher pegou a sua mão e colocou a mão no seu braço como se ele estivesse conduzindo uma dama, mas na verdade era ela que o conduzia pelas ruas da cidade. Àquela hora havia muito menos pessoas e carruagens, e era possível ver as fachadas inteiras dos prédios, sem ninguém na frente. As lâmpadas a gás da rua estavam acesas, mas eram quase desnecessárias diante da quantidade de cartazes luminosos e janelas que espirravam luz para fora dos estabelecimentos. Havia muito riso e música escoando de todas as aberturas, amigos bebendo e conversando na rua, uma profusão de festas e bailes.

O Viajante estava tão desorientado quanto chegara, mas agora um sorriso surpreso insistia em erguer os cantos de sua boca. A mulher notou o seu olhar encantado e comentou:

- Por que o espanto, rapaz? Nunca havia visto Profectus à noite?

- Então este é o nome da cidade? Não, nunca vi. Cheguei na cidade menos de uma hora antes de ser assaltado. Até onde eu sei, passei mais tempo desacordado do que acordado. A cidade é muito diferente de dia.

- Ah, o trabalho! A maioria das pessoas trabalha durante o dia inteiro. Aqui em Profectus há muitas fábricas, é um trabalho árduo para a maioria. Mas a cidade também é próspera como um dragão velho e durante a noite gosta de rolar sobre seu ouro. Todos são felizes, tem o que querem e o que precisam, e celebram suas vidas na mocidade da noite.

Um jovem desceu de uma carruagem na frente de um suntuoso palácio e ofereceu a mão para sua dama descer. Ambos estavam usando roupas muito finas, e o vestido da moça tinha tantas camadas quanto uma cebola, mas era majestosamente adornado com pedras e rendas. O casal trocou olhares, risos e selinhos antes de entrarem na festa onde eram esperados.

- Eu vejo... - o Viajante comentou. Seus olhos corriam por diversas cenas parecidas em vários outros pontos das ruas. Tanto as pessoas que entravam quanto as que saíam dos prédios pareciam estar se divertindo, embriagadas, mesmo que sóbrias, com suas próprias vidas.

Depois que a mulher o levou para um cabaré, lugar do qual era dona, o Viajante comeu uma boa refeição e assistiu a um espetáculo muitíssimo divertido - tudo por conta da casa. Com a noite chegando ao fim e o sol ameaçando começar outro dia, o Viajante se deu conta de que nunca antes algo tão ruim acontecera que houvesse resultado num dos melhores momentos da sua vida.

Pensando nisso, percebeu que esse era o modus operandi de toda a cidade. Profectus, a cidade que crescia luminosa e musical sobre a sujeira do trabalho.