terça-feira, 27 de setembro de 2011

Eterno


Terminava um morno dia de primavera. O Sol ia preguiçosamente ao encontro do horizonte, e seu brilho alaranjado refletia-se no lago, quase alcançando a grama e os pés de Lílian, na margem oposta.

Ainda contemplando o Sol, Lílian comentou para seu melhor amigo, sentado ao seu lado:

- Uma vez aprendi que quando a gente vê o Sol tão perto assim do horizonte, ele na verdade já se pôs. Efeito da luz.

- Sério?, disse ele, sorrindo.

Ela olhou para o lado, e sorriu também. Enxergava no sorriso do outro uma de suas covinhas, e o brilho de um de seus olhos, mais infinito que aquele do Sol.

Entrevia o menino de quem queria cuidar pelo resto da vida. Seus pés largados na grama, fãs de futebol; suas mãos sujas da terra do parque; seus cabelos bagunçados, com cara de fim de dia, mas ainda macios como os de um bebê.

Via também o homem que lhe faria companhia em todos os momentos. Os olhos compreensivos, os braços aconchegantes, o estar ao lado, por inteiro, bastante.

Toda essa eternidade ali revelada, e era aquele fim de dia morno, primavera.

- Mas esse Sol parece tão real, ele disse.

- É... ele brilha, esquenta, é laranja, redondo, aparece no céu, na água e nos olhos..., ela brincou, esperando o que ele diria.

- É meio estranho saber que ele não está mais ali, apesar de estar.

- Meio... desalentador?

- É... mais ou menos. Ele olhou para ela, agora sem covinhas.

- Mas não faz diferença, faz? Continua sendo o Sol, e é tão lindo!

Ele voltou a sorrir:

- É... verdade.

- E é assim com todos os sóis, e com todos os seus poentes, ela continuou, ainda mais entregue. – São todos belos e intensos. O que a luz faz, ou o que fazem dela, não muda o que sinto.

- Não faz diferença mesmo, ele concluiu, enlevado.

E, nessa cumplicidade, o Sol se pôs.