terça-feira, 6 de setembro de 2011

O Abacateiro

O Menino acordou num sábado preguiçoso com o sol entrando pela janela. Determinado a voltar a dormir, pois ainda era cedo, arrastou-se até a cordinha da persiana. Porém, antes de conseguir vedar a entrada de sol, viu com o canto do olho uma cena corriqueira que sempre despertava a sua curiosidade.

Do outro lado da cerca viva, um Velho cortava pacientemente as folhas secas das suas árvores em miniatura. No seu jardim havia uma dezena de árvores diferentes, mas aquelas que o Velho cultivava em vasos, pequenininhas, eram as favoritas do garoto. Elas tinham um nome estranho que ele não conseguia guardar, mas eram muito bonitas e despertavam muito a sua curiosidade, pois até os frutos que davam eram pequenos. E o Velho cuidava de todas elas com bastante cuidado.

Depois do café da manhã, a mãe do Menino insistiu que ele comesse alguma fruta, qualquer uma, pois era importante para o seu crescimento. O Menino então escolheu a fruta com a qual faria mais meleca: um abacate. Colocou a polpa numa tigela, amassou-a bem imaginando que eram pedaços de lesmas marcianas que os extra terrestres usavam para fazer sopa. Depois de colocar meio pote de açúcar no abacate, foi para a varanda. Sentado num dos degraus de madeira, ficou observando o Velho na sua calma tarefa de cuidar do jardim, folha por folha, espinho por botão.

Quando chegou na beirada da cerca viva para apará-la, o Velho o cumprimentou. O Menino retribuiu o aceno e ofereceu-lhe um pouco da sua gororoba de abacate. O Velho recusou, dizendo:

- Não, obrigado. Não aprecio abacate açucarado tanto assim. Mas eu gostaria de ter a semente, se ainda a tem.

O Menino achou estranho, mas foi buscar a semente que deixara largada na pia da cozinha. Deu uma lavada nela e a entregou ao Velho, que ocupou-se de plantá-la. O Menino ficou observando todo o seu trabalho debruçado nos galhos mais fortes da cerca viva, mesmo depois de já ter terminado de comer o seu abacate. Enquanto o Velho cobria o buraco já com a grande semente de abacate, o Menino perguntou:

- Por que você está plantando essa semente?

- Para que ela cresça e de mais abacates.

- Mas você disse que não gosta de abacates. E o senhor já tem uns cento e cinquenta anos, nem vai viver pra ver a árvore dar frutas.

O Velho não se ofendeu com aquilo, apenas continuou plantando a semente como se tivesse todo o tempo do mundo, apesar dos seus noventa e seis anos.

- Mas você gosta de abacates e ainda vai ficar aqui por alguns anos.

O Menino ficou mudo e pensativo.

Mal sabia que, nem dois anos depois, as suas palavras se tornariam verdadeiras. O Velho não viveu para ver o abacateiro dar frutos, mas o Menino viu. A árvore cresceu e espichou junto com ele, ano após ano, e um dia começou a dar grandes frutos verdes. E todo ano o Menino pulava a cerca viva para pegar algumas dúzias de abacate, como Velho sabia que ele faria.