terça-feira, 13 de setembro de 2011

Pensadores e idéias, revoluções e heróis

"(...) Concluindo, embora pensadores como Voltaire e Montesquieu tenham desempenhado um papel essencial no desenvolvimento dos ideais iluministas, os verdadeiros heróis da Revolução Francesa foram aqueles homens que de fato arregaçaram as mangas e saíram às ruas para tomar a Bastilha e mudar de vez o curso da história. Seus nomes podem não ter sido lembrados, mas sua atitude de não se conformar com o status quo vigente e lutar por uma sociedade mais justa e igualitária impactou de forma imensurável a história contemporânea ocidental..."

E nessa hora Leonardo percebeu que mais ninguém na sala estava prestando atenção no que ele estava falando. Alguns colegas estavam conversando, outros jogando forca ou jogo-da-velha, mas a grande maioria (inclusive a professora) estava quase caindo de sono, de modo que Leonardo achou por bem encerrar sua apresentação do trabalho:

- Desculpem, acho que eu me empolguei.

Quando retornou para seu lugar, o rapaz sentado na carteira de trás puxou papo:

- Gostei do seu ponto de vista. Realmente, a história nunca se lembra das pessoas comuns.

- Justamente! Ficam falando que todas as pessoas são iguais, mas as vezes parece que algumas são mais iguais do que as outras.

O fato de Tiago ter prestado atenção na sua apresentação não era muito comum. Ter puxado papo e comentado sobre o assunto com Leonardo, então, era algo bastante improvável, mas foi nesse momento que a coisa realmente ficou surpreendente:

- Sabia que essa frase é de um livro? "A Revolução dos bichos", de George Orwell. Você já leu? Acho que iria gostar...

- Não li, não. Sobre o que é?

- É sobre essa distância entre os ideais de igualdade dos discursos dos filósofos e a aplicação prática disso na sociedade. Para você que se interessa por esse lado social, acho que vai ser bem interessante.

"Peraí! Eu não posso estar ouvindo o que eu estou ouvindo de quem eu estou ouvindo", pensou Leonardo. Seu rosto demonstrava claramente uma tremenda expressão de surpresa com toda essa conversa:

- Qualé, só porque eu jogo futebol eu não posso ter cultura? Que tipo de história sobre colégio é essa em que todos os personagens precisam ser estereótipos copiados de filmes de comédia adolescente norte-americanos?

- Puxa, Tiago, você tem razão... Me desculpe.

- Relaxa, já estou acostumado... Mas... Léo, eu estou com um filme lá em casa que acredito que você vai gostar de assistir. Tá afim de baixar lá amanhã depois da aula? Tipo... não é que eu queira te pressionar a ser meu amigo, nem nada, mas é raro achar alguém que curta essas paradas sociais...

E lá foram eles assistir a um filme sobre a guerra civil no [ - - - texto bloqueado pelo detector de spoilers - - - ] e através da atuação de uma equipe de profissionais estrangeiros [ - - - texto bloqueado pelo detector de spoilers - - - ] reconstrução do país.

- E aí, Léo, curtiu?

- Muito! O filme é muito bom mesmo! E isso me fez pensar... Eu gosto de escrever, mas já tem bastante gente muito boa escrevendo sobre os problemas da pobreza, da sociedade, mas tem tão pouca gente realmente fazendo algo para ajudar... Sei lá, eu não quero ser só alguém que fala do problema, eu quero fazer a minha parte, saca?

- Ah, legal... Você até tem razão, mas, cara... olha a nossa idade! Como é que a gente vai poder ajudar as pessoas no outro lado do mundo?

- Ué? E só tem gente precisando de ajuda do outro lado do mundo? Será que aqui perto não tem nada que a gente possa fazer?

E dizendo isso, um brilho diferente surgiu no olhar de Leonardo. Um brilho que deixou Tiago um tanto quanto assustado:

- Peraí, no que você está pensando?

- Você tem alguma coisa planejada para sábado?