sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Sábado (parte 1)

- Vai demorar muito ainda, Fernanda?

Leonardo esperava pela amiga se arrumar para poderem sair juntos. O destino era misterioso, Fernanda só sabia que deveria estar pronta e disposta para sair com ele no sábado pela manhã. "É uma surpresa!" dizia ele. "Vista uma roupa confortável, que possa sujar um pouco e esteja bem humorada" foram as únicas orientações que ela recebeu. E, embora oito horas da manhã de sábado ainda seja praticamente madrugada para os adolescentes, não era nada difícil acordar bem humorada sabendo que o Leonardo estava vindo buscá-la para saírem juntos.

Mas apesar de estar bem humorada, mulher ainda é mulher e Fernanda não conseguia decidir que roupa usar para "chamar atenção do Léo mas sem chamar atenção demais". Mulheres...

Acontece que enquanto isso, Leonardo começava a perder a paciência. A surpresa que ele tinha preparado era demasiadamente empolgante (pelo menos para ele) e estava difícil conter a ansiedade de revelá-la. Batia o pé no chão, mexia no celular para ver as horas, bocejava...

- É pra hoje?

- Você quer que eu te faça mais um Nescau enquanto você espera a Fernanda?

E lá de dentro do quarto veio a resposta furiosa da menina que não queria que a mãe "arruinasse seu encontro":

- Não, mãe! Ele não quer mais Nescau! Eu já to descendo!

- Bem, pra falar a verdade, eu queria sim, por favor. – disse Leonardo com um sorriso amarelo devolvendo o copo.

E nisso tem início aquela famosa cena de filme: o rapaz sentado na sala esperando a moça fica boquiaberto quando ela aparece no alto da escada. A trilha sonora melosa toca enquanto ela lentamente desce as escadas e após o último degrau, o rapaz exclama:

- Você demorou tudo isso pra colocar jeans e camiseta?

- Ué, mas foi você quem falou que era para eu vestir uma roupa confortável.

Deixa pra lá... não vai dar muito certo tentar prolongar essa conversa. Aperte o Fast forward ("FF") do seu controle remoto e vamos pular direto para a parte em que Leonardo e Fernanda estão descendo do ônibus em algum canto distante da cidade. Nessa altura do campeonato, ela já percebeu que eles não vão fazer um pique-nique no parque nem passear de pedalinho, mas Leonardo parece tão empolgado com o que está por vir que a curiosidade de Fernanda só aumenta.

- Chegamos!

É uma casa relativamente grande, não muito bem preservada, em uma região simples da cidade. Enquanto Leonardo bate palmas e pede para abrirem a porta, Fernanda ouve alguns barulhos vindos de dentro da casa, mas não consegue diferenciá-los. Ela ainda não sabe o que ele preparou, mas já perdeu as esperanças do encontro romântico com que sonhara.

Uma senhora gorduchinha e sorridente sai de dentro da casa vestindo um avental repleto de manchas de tinta colorida.

- Você deve ser o Leonardo, né? Nós conversamos por telefone, eu sou a tia Maju. Entrem, por favor, seus amigos já estão lá dentro.

E enquanto entravam na casa, Leonardo foi explicando que ali funcionava um abrigo para crianças com problemas familiares e que a tal tia Maju era a responsável por cuidar da casa e das crianças. Leonardo tinha ligado para ela durante a semana e se oferecido para vir com alguns amigos e prestar um serviço voluntário, "dar uma mão" para a tia Maju.

Dentro da casa, uma horda de crianças das mais diferentes cores e tamanhos corria de um lado para o outro brincando, ora com brinquedos usados, ora com garrafas de refrigerante vazias. O lugar era simples, mas muito limpinho e alegre.

Leonardo abriu um sorriso que mostrava todos os dentes, mas Fernanda ainda estava decepcionada por não estar em um pique-nique a sós com seu melhor amigo. Nada contra as crianças, mas elas não eram exatamente o que ela tinha planejado para o seu sábado de manhã. Fernanda já estava se conformando com a situação e ia abrir o primeiro sorriso quando ela viu sentados no meio de uma rodinha de crianças algo que fechou-lhe o semblante:

- O que a Clara e o Tiago estão fazendo aqui?

- Ué, eu convidei eles para virem, por quê?