sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Histórias do meu avô: Cicatriz

Meus avós moravam em um daqueles sobrados antigos de Santos, com ambientes amplos e altos. Na época eu ainda não estudava arquitetura então não prestava atenção em muitos detalhes construtivos, só lembro daquele banheiro maior que o meu quarto, com azulejos e piso cerâmico cor de rosa.

Da casa, portanto, não lembro muito, mas dos meus avós eu lembro bem. Especialmente do meu avô que, embora fosse muito falante e comunicativo, raramente sentava com os netos para relembrar as "histórias do seu tempo". Talvez ele tivesse receio de ser enfadonho e nos entediar. Só sei que justamente por serem raras, as suas histórias ficaram profundamente marcadas na minha memória. Uma delas, em especial, eu passo a narrar a seguir.

Certa vez estava sentado na poltrona da sala assistindo desenho animado quando ouvi meu avô descendo as escadas. Como um menino bem adestrado que sou, sabia que quando meu avô estava na sala, era dele a prioridade do uso da poltrona e do controle remoto então me mudei para o sofá, permitindo que ele se sentasse ao meu lado.

Lembro-me que naquele dia estava quente e meu avô usava calças curtas (no anglicanismo, shorts), permitindo que eu observasse as cicatrizes e marcas na sua perna. Em determinado momento fui vencido pela curiosidade e perguntei:

- Vô, o que são todos esses roxos na sua perna?

- Ah, esse aqui... - E a partir daí ele começou a enumerar as marcas nas panturrilhas e joelhos, relacionando-as com antigos jogos de futebol de rua no interior, ou quedas de bicliceta ou de cima de árvores. Cada marca era uma aventura diferente, e eu, em minha mente inocente de criança olhava para todos aqueles machucados, ouvia suas histórias, imaginava cada uma das aventuras que os ocasionou e pensava:

"Quando eu crescer quero ter a perna toda machucada, que nem o meu avô!"