sábado, 29 de outubro de 2011

Histórias do meu avô: UTI

Após alguns dias internado, consegui entrar na UTI para visitar meu avô junto com minha vó. Caminhamos até o leito onde vovô estava deitado, cheio de tubos e fios e já bastante magro e fraquinho.

Quando chegamos meu avô ainda estava acordado porém conforme minha avó conversava com ele e contava sobre todas as pessoas que haviam telefonado e desejado melhoras, meu avô adormeceu. Mas a vovó não percebeu e continuou falando até que eu lhe mostrei que, por estar muito fraco, o vô havia dormido. Vovó simplesmente ficou quieta e baixou a cabeça, continuando a acariciar a mão direita do marido.

Era nítida a tristeza que minha vó sentiu quando percebeu o quão fraco meu avô estava e, para tentar animá-la, perguntei se hoje o vô já havia dito que a amava, ao que ela respondeu com um simples "Não querido, mas deixa pra lá. Ele está cansado hoje."

Agora talvez você me critique pela atitude que eu tomei, mas embora na hora parecesse insanidade, nunca me arrependi do que fiz naquele momento.

Lá estava meu avô deitado na maca da UTI, muito magro, fraco e cheio de fios pelo corpo. E lá estava o neto que sem pensar duas vezes cutucava o avô no ombro tentando acordá-lo.

- Vô, vô! Acorda, vô!

Após uma certa insistência, meu avô abriu os olhos lentamente e eu lhe falei:

- Vô, a vó quer ouvir o senhor dizer que a ama!

Desculpem-me, mas não consigo segurar o choro nesta parte da história. Espero com todo o meu coração que a memória desta cena nunca saia da minha cabeça. Meu avô juntou todas as forças que tinha, olhou para minha vó, olhos nos olhos dela, e disse... bem, na verdade ele não disse porque não tinha nem mais forças para falar, ele apenas gesticulou aquilo que seus olhos diziam claramente:

- Eu te amo.

Imediatamente depois disso meu avô adormeceu novamente. Após alguns minutos acabou o tempo de visita na UTI e nós tivemos que ir embora. Dois dias depois meu avô faleceu. Esta foi a última vez que eu o vi, mas tenho muito orgulho por lembrar que as suas últimas palavras foram a mais sincera declaração de amor que eu já vi, justamente para a mulher com quem esteve casado por 55 anos.

E viveram felizes para sempre.