terça-feira, 11 de outubro de 2011

A Revanche (parte 1)

Era uma manhã tranquila. Aliás, não era mais manhã, já era de tarde. As horas passaram sorrateiras e despercebidas. Passaram tão rápido que o Bobo da Corte demorou a perceber que já não eram mais tão tranquilas assim.

No começo foi só uma pessoa andando com aquele aparato singular na cabeça, mas logo o número foi aumentando até que uma verdadeira multidão o exibisse. Era um capacete redondo preso com uma tira de couro embaixo do queixo. Até aí, nada especial. O que era curioso era a engenhoca presa no capacete: uma hélice quase tão larga quanto os ombros das pessoas girava a cada mínimo movimento que fizesse, tão rápida quanto eram seus passos; um emaranhado de fios e tubos se conectava a mais tubos e fios que faziam engrenagens abrirem válvulas e baterem pistões, liberando pequenas nuvens de vapor e variadas ondas do tinir metálico das peças. Também havia diversas luzinhas multicoloridas em pontos aleatórios que piscavam sem parar.

Se fossem só algumas pessoas andando para lá e para cá com o estranho chapéu, o Bobo da Corte não teria se incomodado, mas a grande quantidades de pessoas com aquela peça de vestuário fazia tanto barulho que nem se ouvia mais o som das rodas das carroças e charretes rodando no paralelepípedo bruto - e no final da tarde isso era algo muito raro.

O Bobo da Corte se irritou com tanto barulho desnecessário e andou no fluxo contrário das pessoas com chapéus brilhantes. Andou algumas quadras até encontrar a barraquinha onde eles eram vendidos a preço de banana, entendendo de imediato qual era o seu grande atrativo. Chegando mais perto, reconheceu os vendedores: era a trupe que, muito tempo atrás, montou uma máquina muito maior no centro do Templo do Conhecimento. Apelidara a geringonça, naquela época, de "Máquina de Fazer Barulho", pois era exata e unicamente isso sua finalidade. Agora eles haviam criado uma versão menor com a mesma funcionalidade, porém mais eficaz.

- Vocês não se cansam de fazer isso? - perguntou, sem rodeios, aos inventores dos Chapéus Barulhentos. Eles o reconheceram de imediato: o Bobo da Corte por duas vezes sabotou a Máquina de Fazer Barulho até que eles deixassem os estudiosos do Templo do Conhecimento estudar em paz.

- Ah, então você! - falou o mais velho do grupo. - Que bom que está aqui! Assim pode apreciar a nossa mais nova invenção: o Chapéu Barulhento. Quero ver você ir atrás de cada pessoa que comprou o chapéu e estragar as nossas engenhocas agora.

- Espere e verá. Eu vou dar um jeito.

O Bobo estreitou os olhos e estufou o peito aceitando o desafio.


[Continua...]