sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A Revanche (parte 2)

Dezenas de pessoas andavam pela praça no fim do dia com seus Chapéus Barulhentos, abafando todos os outros sons. Passarinhos piavam mudos diante de tanto ruído vindo daqueles seres bípedes que caminhavam no pavimento sob as árvores. E o Bobo da Corte se afastava dos inventores daquela engenhoca infernal com tamanha determinação e fúria no olhar que as pessoas se afastavam para lhe abrir caminho.

O Bobo da Corte tinha um plano para fazer as pessoas pararem de usar os Chapéus Barulhentos. Levaria alguns dias e certamente o chapéu já estaria espalhado por toda a cidade, mas pelo menos livraria a Praça Central daquela cacofonia disforme, transformando-a novamente num local de lazer e descanso.

Depois de duas semanas inteiras, os inventores dos Chapéus Barulhentos celebravam sua vitória sobre o Bobo da Corte abaixando ainda mais o preço dos seus inventos. Naquele dia, as pessoas compravam como nunca os chapéus, afinal, tem-se que aproveitar quando um objeto tão bonito e brilhante, que faz tantas coisas ao mesmo tempo - apesar de ser útil para absolutamente nada - está tão barato quanto um cacho de bananas. Foi com a barraquinha apinhada de compradores que os inventores de tal engenhoca presenciaram o retorno do Bobo da Corte.

Ele chegou devagar na praça, atrapalhando o trânsito de carroças e pessoas nas ruas. Vinha arrastando um pesado carrinho com algo misterioso coberto por um ar de mistério, o que, materializado, aparentava ser algo muito volumoso com um lençol branco por cima. Algumas pessoas cochichavam à sua passagem, outras apontavam, outras ainda caçoavam e riam. Os inventores dos Chapéus Barulhentos tiveram todas essas reações. Ninguém, é claro, ouviu o comentário de ninguém, tamanha era a concentração de Chapéus Barulhentos em atividade na Praça Central. O Bobo da Corte ignorou a todos, posicionando seu carrinho a poucos metros da barraquinha, onde teria o maior número de telespectadores possível. Com um gesto largo e floreado, o Bobo retirou o lençol branco, revelando o que trazia no carrinho.

Era um quarteto de cordas completo - ou quase. Faltavam os músicos. Mas a estes o Bobo da Corte substituiu por autômatos rudimentares de metal, que vagamente lembravam formas humanas de casaca. Num canto do carrinho, havia uma caixa com uma manivela, a qual o Bobo girou, girou e girou, até travar as molas do mecanismo interno. Ele então soltou a manivela e apertou um botão no topo da caixa. O som saiu fraco à princípio, mas logo uma bela e forte melodia começou a tocar graças ao movimento dos braços dos autômatos tocando seus instrumentos.

Aquela música era uma das que o Bobo da Corte costumava ouvir no reino em que nascera, durante as numerosas festas e bailes no castelo do Rei. Havia programado os mecanismos dos músicos artificiais para tocar uma série de músicas como aquela, grandiosas, suaves, complexas e sutis. Apesar de a praça não ser o melhor ambiente para se tocar música de câmara, o som ainda era muito belo e capaz de transportar as pessoas para o interior de suas próprias mentes e corações. Ou, pelo menos, era nisso que ele estava apostando.

E apostou certo.

As pessoas ao redor do seu quarteto de cordas artificial pararam para ver, primeiramente, por curiosidade. Ao perceber que aquela grande engenhoca produzia som, algumas pessoas tiraram timidamente os Chapéus Barulhentos de suas cabeças. Não demorou muito para que mais da metade das pessoas fizesse o mesmo. Logo o único som na Praça Central era a música trazida pelo Bobo da Corte. Todos os Chapéus Barulhentos num raio de 500 metros estavam silenciosos.

O Bobo da Corte esperou mais três músicas para ter certeza de que aquele efeito era duradouro. Então se dirigiu aos inventores dos Chapéus Barulhentos, que já começavam a empacotar suas geringonças e a desmontar a barraquinha de vendas. Com o peito estufado em triunfo, o Bobo apenas sorriu para eles.

Uma vitória avassaladora, mesmo que pontual, dispensa palavras.