terça-feira, 4 de outubro de 2011

A Volta de Perséfone

Os dias passavam e eram todos iguais: cinzentos, aborrecidos, frios. Mas não era aquele tipo de frio de cortar os ossos, que faz as pessoas se enrolarem nos seus casacos mais grossos e lutar contra o vento que insiste em levar embora chapéus e lenços. Não, aqueles dias não eram tão interessantes assim. Eram apenas frios e gelados, sem vento. A maior emoção que se poderia ter era o aborrecimento de uma garoa fina a embaçar os óculos durante uma caminhada de três quadras.

As cidades pelas quais o Viajante passava nesses dias também eram todas iguais: cinzentas, patinadas, sem calor. Não havia sorrisos nas praças, crianças nas ruas nem música nas casas. Até as casas noturnas eram silenciosas e sem brigas.

Estava já tão acostumado com os cenários cinzentos que se sucediam num padrão monótono demais para ser desconfortável que mal reparou que passara mais um dia inteiro andando de uma cidade para outra. Também não percebeu que aquele dia era diferente.

Ao entrar na cidade seguinte, o sol já estava baixo e jogava uma luminosidade alaranjada sobre as ruas de paralelepípedos. As casas lançavam suas longas sombras uma sobre as outras e passarinhos cantavam alegremente no topo de árvores floridas que pareciam pegar fogo. Vindo de uma das casas, ele ouviu uma conversa acalorada seguida de risos e o tilintar de louças e talheres. Mais adiante, um grupo de crianças que brincavam passou correndo por ele, perseguindo uma pipa que haviam "ganho" das crianças da rua de baixo e agora voava com o fio cortado para os telhados das casas. Subindo uma ladeira, pôde ouvir um som compartilhado em vários lares que vinha de uma incrível invenção, capaz de reunir as famílias nas salas de estar, informar notícias do mundo todo e trazer as canções mais populares do momento instantaneamente.

Aquele não era um dia como os anteriores. Aquele era o primeiro dia da primavera. O calor fresco do fim da tarde acolhia as pessoas nas ruas e as acompanhava até suas casas depois de um longo dia de trabalho. As moças se arrumavam para sair com seus respectivos rapazes na noite jovem. Amigos riam e brindavam, brincavam e jogavam nas casas e a céu aberto.

Aquele era o primeiro de muitos dias.