terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Vaidade

A Senhora parou defronte a uma loja na Encruzilhada dos Pinhões. Não havia nenhuma placa indicando o que se vendia ali, pois isso era desnecessário. A fachada era inteiramente coberta por uma infinidade de espelhos que formavam um mosaico bastante peculiar, refletindo o outro lado da rua, um pedaço do céu nublado e as pessoas que se davam ao trabalho de parar e olhar seus reflexos. Nos espelhos da loja, a rua estava deserta, exceto pela Senhora.

Ao entrar, seguindo-se ao tilintar de um sino no alto da porta, uma voz enrugada ecoou do alto da escada nos fundos da loja. A voz vinha de uma mulher baixa e antiga envolta em uma névoa fumacenta do seu inseparável cachimbo de madeira.

- "Espelho, espelho meu! Quem é mais vaidosa do que eu?"

- Por que você nunca me cumprimenta com um tradicional "seja bem vinda" toda vez que eu entro aqui? - a Senhora retrucou, abaixando o grande capuz.

- E o que há de tradicional em nós, velha amiga? - a Artífice de Reflexos respondeu com um riso silencioso estampado no rosto.

- Todas as pequenas coisas, talvez. Entretanto, nem um detalhe sequer.

- Eu não teria dito melhor. O que a traz aqui hoje?

- Bem, você já o adivinhou. Preciso de um espelho. Um que me diga a grande verdade.

- O último que lhe fiz não é suficiente para isto?

- Não. O Espelho do Bem e do Mal não mostra o que quero saber...

- ... Porque desta vez o que você quer saber não é nem um nem outro. Você que decide se é bom ou mal, estou certa?

- Como sempre. Qual espelho você sugere?

A Artífice largou uma risada sonora e repentina, jogando a cabeça para trás.

- Você sabe que não é assim que funciona. Você precisa achar o espelho certo sozinha. Especialmente neste caso.

A Senhora suspirou.

- Esperava que você facilitasse as coisas para mim desta vez, por todas as nossas décadas de amizade.

- É exatamente por isso que não a ajudarei.

A Senhora assentiu com a cabeça, começando então a buscar pelo reflexo de que precisava. Andou em meio a espelhos que mostravam reflexos fantásticos, que em nada tinham a ver com a realidade, outros deveras comuns, e outros ainda sem nenhum reflexo. Espelhos grandes, pequenos, minúsculos e que mostravam o corpo inteiro. todos com molduras de formas e cores tão diversas quando o número de estrelas num céu limpo de inverno. A Artífice era, de fato, uma artista, e das mais perigosas.

Então finalmente encontrou: dois espelhos, não muito longe um do outro. Um deles era grande o suficiente apenas para mostrar seu busto e tinha o formato de um brasão. Sua moldura era simples, com desenhos compostos por retas e incrustado com pequenos losangos de pedra amarela. O metal da moldura era escuro, cinzento e forte. O outro espelho mostrava seu corpo inteiro emoldurado por um entrelaçado de formas curvas compostas por pelo menos cinco metais diferentes, de cores bastante distintas.

Os reflexos em ambos também eram tão diferentes quando sua forma. No primeiro, a Senhora se viu mais velha, com as linhas do tempo marcando todo o seu rosto. Apesar do sorriso de uma pessoa satisfeita com a vida, sua postura estava cansada e seu olhar era vago, como alguém que não enxerga o presente. No espelho maior, sua imagem era jovem, altiva e sensual, mas seu olhar era claramente triste e desesperado, apesar da dissimulação.

Vendo que a Senhora parara de procurar outros espelhos, a Artífice se aproximou com sua névoa sempre presente.

- Entrou algo do seu agrado?

- Não, mas encontrei o que estava procurando. Estes dois - a Senhora apontou para os dois espelhos que lhe intrigaram -, eles falam a verdade.

- Impossível. Não existem duas verdades. Existem infinitas possibilidades de verdades, tanto quanto existem infinitos olhares sobre as coisas. Mas o seu olhar é um só, a sua verdade deve ser apenas uma.

- Bem, neste caso, a escolha é óbvia. Das duas, a minha maior vaidade...