sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Geometria de uma longa amizade


Vértice tinha a capacidade de ser objetivo como uma flechada. Mas como muitos não estão acostumados a tão calculadas e pensadas intervenções (não acompanhando seu rápido raciocínio), ele aprendeu a prolongar e minuciar assuntos e explicações, e assim adquiriu também a capacidade de deixar seus ouvintes evasivos, ou com vontade de se evadir. Procurei alguma passagem dessas longas conversas para trazer ao leitor, mas não houve quem se lembrasse com uma mínima precisão de alguma delas; apenas dos assuntos gerais ou dos momentos.

Era extremamente observador, sensível e inteligente. Talvez tenha desenvolvido tudo isso ainda no início da adolescência, quando buscava meios de se relacionar melhor com as pessoas, principalmente colegas de classe. As turmas escolares costumam segregar os mais tímidos e quietos, e era assim o Vértice naquela época.

Depois de muito refletir e calcular, ele encontrou algumas estratégias para iniciar conversas e desenvolver relacionamentos.

- E sabe que tem dado certo?!, comentou, radiante, certo tempo depois.

É, acredito que tenha dado certo mesmo. Vértice (apesar de suas por vezes longas falas) acabou conquistando amizades (igualmente longas). Para algumas destas, ele se tornou um canto de confiança e apoio para se abrigarem sempre que um ponto, um plano ou uma reta obscuros ou lastimosos tomavam parte nas batalhas cotidianas.