terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Minhas histórias: Luz

Estava sentado no banco de madeira e couro em frente à casa do seu Zé. Seu Zé tinha 73 anos na época, embora parecesse ter pelo menos o dobro. Seu Zé morava (e ainda mora, diga-se por sinal) logo alí, no sertão do Piauí.

Estava eu, menino da cidade, piá de prédio, sentado em frente à casa do seu Zé quando lhe perguntei, entre uma e outra partida de dominó:

- Seu Zé, faz tempo que o senhor tem luz elétrica aqui na sua casa?

E o seu Zé, que tinha 73 anos, parecia ter o dobro e morava no sertão do Piauí me disse assim:

- Ih... (todas as frases dele começavam com "ih" e terminavam com "he he he" - sempre três risadas com meio segundo de pausa entre elas) faz sim, meu filho. Aqui a gente tem luz já faz uns 4 anos.

E eu, menino da cidade, piá de prédio, sentado num banco na frente da casa do seu Zé, que achava inimaginável imaginar alguém conseguindo sobreviver tanto tempo sem luz fiquei estupefato. E o seu Zé, que tinha 73 anos mas parecia ter o dobro, e que tinha luz na casa dele há 4 anos continuou:

- ... mas eu nem vejo muita utilidade nessa luz não. Aqui a gente só usa a luz pra deixar a água gelada, he he he!

E eu, menino da cidade, piá de prédio, sentado em um banco na frente da casa do seu Zé no sertão do Piauí até pensei em perguntar se ele não sentia necessidade de ter um iPad ou trocar de celular, mas antes que eu pudesse formular a pergunta, o seu Zé voltou pro jogo de dominó.