quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Página em Branco

A página seguinte é uma incógnita. Não há nela um traço sequer, nem uma linha guia, uma mancha de café. De fato, uma mancha significaria que algo já passou por aquela página, nem que fosse uma lágrima, mas nem isso havia.

A página anterior terminou com um borrão. Garranchos mal feitos e rabiscos para encobrir os erros de gramática. Mas todas as palavras estavam ali, encobertas por riscos ou não, perfeitamente desenhadas ou transcritas às pressas. Estava tudo ali, naquela última página, um fim em si mesma.

Entre o passado e o futuro pode-se ver a costura do caderno. Um fino fio de alvura exemplar aparece e desaparece por três vezes nas dobras do papel. Mas ele não está ali para ser um divisor de águas. Não, antes o fosse. Esse fio está ali para manter todas as folhas juntas, unidas, inseparáveis.

A folha em branco transpira mistério e incerteza. As possibilidades são tantas que, ao mesmo tempo, chocam, maravilha e nauseam a mão que segura a caneta. Mas é preciso criar, senão a folha em branco perde o seu sentido. Todas as possibilidades deixam de existir e ela passa a ser menos que uma folha.

Sendo assim, a mão que segura a caneta põe-se em movimento...