terça-feira, 24 de janeiro de 2012

A Posse e o Pertencer

Um garotinho estava sentado no balanço de seu quintal. Era apenas uma tabua de madeira presa por duas cordas num galho mais ou menos alto da árvore. Sua casa era no alto de uma colina com pouca vegetação. Do quintal conseguia ver o campinho de futebol numa baixada do terreno onde os garotos costumavam jogar. Mais adiante era onde a cidade realmente começava, com ruas e vendinhas se multiplicando em direção ao centro onde as pessoas grandes trabalhavam. Sua casa ficava num ponto tão alto que só perdia para a caixa d'água da cidade. Dali podia ver o mundo inteiro - ou, pelo menos, tudo aquilo que conhecia do mundo.

O ar esfriou de repente, e o menino parou de se balançar. Pôs-se a observar o horizonte, arrastando de leve os pés na grama amassada abaixo de si. O balanço então o empurrou para trás e girou, obedecendo à força do vento que arrebatava a colina. Nuvens escuras vinham com ele, junto com o cheiro de água.

Ele esperava. As nuvens desciam e escureciam, se adensando sobre a cidade. O garoto esperava a chuva chegar. Finalmente ela estava ali! Finalmente, depois de tantos dias de garoa fraca num verão ameno, uma chuva de verdade se aproximava.

"Chuva não. Tempestade! A minha tempestade."

O garoto refletiu sobre o que acabara de pensar. Sempre gostou das chuvas de verão. (Ou melhor, das tempestades.) Gostava de ver os raios dançando no meio das nuvens até que um finalmente caísse na cidade lá embaixo, ouvindo o trovão com alguns segundos de atraso. Mantinha seu posto no balanço até o último minuto. Quando o aguaceiro chegava perto, ele corria para seu quarto e ficava observando todo aquele espetáculo da janela, ajoelhado na cama. Era rápido e arrebatador, cheio de luzes repentinas que paravam o coração quando cortavam o ar, ligando o céu e a terra.

Era até com certa pretensão que o menino pensava naquele tipo de tempestade como "sua tempestade". Quem no mundo seria capaz ou até digno de possuir um fenômeno tal, aquela força ao mesmo tempo criadora imaginária e destruidora física? Se até as pequenas coisas da natureza não podiam ser verdadeiramente posse de alguém, pois eram todas efêmeras e encerram em seu fim também o fim da possessão, que direito tinha ele de sequer pensar naquela como sendo "sua tempestade"? Ela podia ser sua inspiração, seu fascínio, seu temor, sua paixão. Porém, nunca seria puramente "sua".

Os raios começaram. A chuva caiu como uma cortina de chiado cinzento, rápida e gradativamente cobrindo todas as casas, ruas, árvores e folhas de grama, até que chegou no garoto. Desta vez, porém, ele não correu para o seu quarto. Enquanto os pingos grossos o encharcavam da cabeça aos pés, ele entendeu por que nunca poderia chamar aquela tempestade de "sua".

"Eu sou da tempestade. Ela me molha, ela me assusta, ela me fascina. É ela que tem poder sobre mim, sobre o meu espírito. É ela que me possui."

* ~ * ~ *

Anos mais tarde, o garoto, então um homem maduro, encontrou uma carreira à sua altura. Os zepelins chegaram na sua cidadezinha e levaram embora seu coração. A partir de então, todos os dias ele é o primeiro a acordar na aeronave flutuante a qual chamava simplesmente de Máquina Voadora. Seu trabalho é atentar para que toda a tripulação daquela Máquina cumpra seus deveres e que tenha um rumo certo para seguir todos os dias. O garoto se tornara capitão de um dirigível.

As nuvens de se adensavam uma vez mais. Sopravam os mesmos ventos da sua infância. Os primeiros raios brilhavam e os primeiros trovões ressoavam uma vez mais. A diferença é que agora estavam muito mais perto dele. Dele, de sua Máquina Voadora e de sua tripulação. Dele, e de seus sonhos. Dele e de sua alma.

- Certeza que quer voar direto para o coração da tempestade, Capitão? - perguntou sua timoneira, sempre cautelosa, mas nem um pouco apreensiva.

- Sim. Não há o que temer, minha cara. Tudo aquilo que me é de alguma forma estará seguro, pois finalmente vejo a verdade que a juventude me negava. Um pequeno erro de interpretação guiou meus passos até este dia, mas não mais! Este sentimento de pertencer finalmente encontrou seu significado verdadeiro. Nós vamos para o coração da nuvem, onde dormita essa verdade.

"Eu sou a tempestade!"