sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Vazio (parte 1)

Ela caminhava pelas ruas de paralelepípedos de uma cidade estranha. Carroças e carruagens disputavam espaço com as pessoas nos trechos mais secos. As poças tornavam o andar difícil, por isso todos se esbarravam, atravancando o trânsito já lento devido às pedras escorregadias. Mães puxavam seus filhos para perto de si para que não se perdessem na multidão, cavalheiros protegiam suas damas de encontrões com os estranhos e os passageiros sentados confortavelmente nos carros a cavalo murmuravam qualquer coisa em descontento. A chuva acabara de passar. Todos saíam de seus abrigos temporários para um mais permanente, mais aconchegante, mais lar no fim do dia.

Aquela cena se repetia com frequência naquela cidade, mas ela não saberia dizer. Para ela, era tudo muito estranho, muito impessoal. Não conhecia nenhum lugar ali, nem pessoa alguma. Sabia que deveria se recordar de algo, lembrar de alguém, mas não conseguia. Depois de andar por todo o centro da cidade e forçar seu cérebro ao máximo, se deu conta de que não conhecia nenhuma viv'alma daquela cidade - nem a si mesma - e não sabia o que estava fazendo ali.

Talvez... procurando algo. Ou alguém? Como saberia, se não se lembrava nem mesmo quem era?

Caminhava agora numa rua em que os carros não passavam, tão apinhada de pessoas quanto produtos em exibição nas vitrines de lojas que já fechavam suas portas. Passou na frente de uma loja de espelhos, cuja fachada era inteiramente coberta por incontáveis pedaços de objetos reflexivos de todas formas, tamanhos e cores imagináveis. Todos eles, juntos, refletiam a sua imagem, uma forma da qual ela não tinha consciência, uma forma estranha, desconhecida, e ao mesmo tempo tão familiar quanto o céu cinzento acima de sua cabeça.

Ela era uma mulher. Usava uma longa capa negra sobre um vestido roxo escuro. Seu rosto estava parcialmente coberto pelo largo capuz da capa, deixando à mostra apenas a boca sem sorrisos. Aquela imagem era ela. Ela. Mas... ainda não sabia quem era.

Continuou a caminhar. Não era sua forma que buscava, ao contrário de muitas das pessoas que passavam por ela naquela rua. Sua forma era bem clara e definida, fácil de entender. O que ela buscava não era algo tão simples. Se ao menos soubesse o que buscava, talvez soubesse onde procurar.

Olhava para baixo ao andar. Olhava seu reflexo nas poças d´água. Esperava encontrar nelas a resposta, apesar de saber que não estava ali. Foi inevitável esbarrar num homem que andava na direção contrária. Para a sua surpresa, o homem não se vestia como todos os outros naquela cidade. Enquanto a maioria desfilava com paletós, camisas, chapéus coco e guarda-chuvas fechados como bengalas, aquele homem usava um curioso conjunto preto e branco de calções largos, sapatos grandes e um chapéu de várias pontas pendentes com guizos. A coisa mais incrível sobre aquele homem foi ele ter se desculpado pelo encontrão antes de seguir seu caminho. Olhando estupefata para aquela figura peculiar, ela percebeu algo ainda mais estranho: o seu reflexo nas poças de chuva tinham um buraco bem no meio do torso, podendo-se enxergar claramente do outro lado.

Foi então que ela percebeu: depois de ter esbarrado naquele homem de roupas preto e branca, o reflexo de todas as pessoas que andavam na rua mostravam aquele mesmo buraco. Algumas, curiosamente, tinham pequenas estatuetas dentro de seus buracos: alguns objetos de valor, símbolos religiosos, pequeninas pessoas, moedas. Na verdade, apenas algumas tinham o buraco completamente vazio. Como ela. Como aquele homem.

Levantou o olhar para a rua, mas não encontrou o homem de roupas espalhafatosas. Havia-o perdido na multidão. Quando olhou para as poças novamente, o reflexo das pessoas voltara a refletir apenas sua imagem completa. Os buracos haviam desaparecido.