terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A Máquina de Sonhar

- Oh, é uma maravilha, doutor! Quando ficará pronto?

- Não sei, minha cara. Há anos que o estou desenvolvendo, e ainda assim não estou nem perto de fazê-lo funcionar.

- Mas já parece pronto! Certamente falta pouco. Menos do que a sua modéstia permita que acredite.

- Eu bem gostaria que isso fosse verdade. Porém, a única peça que não consigo fazer funcionar é justamente a mais importante. Esta aqui, vê?

- Mas doutor... Até a medicina já desvendou todos os mistérios dessa peça no corpo humano. Não é possível que você, com todo o seu brilhantismo, não tenha conseguido reproduzi-lo com óleo e metal.

- Não é a mecânica que me preocupa. É exatamente aquilo que não podemos ver que eu não consigo reproduzir. E eu não admito um invento como terminado enquanto não for perfeito.

- Entendo...

As luzes foram apagadas, e o velho e a senhora saíram do aposento. Apesar de vazio, o lugar não era nada silencioso. Havia um incontável número de máquinas de finalidade questionável, estando a maioria incompleta, com engrenagens e espirais à mostra, ou com uma cascaras de tubos jorrando de seu interior, esperando para serem conectados com outros tubos. A um canto da sala, havia também uma mesa especial, cheia de béqueres com fluídos de diversas cores curiosas, com uma rede de tubulações sobre eles a gotejar outros líquidos. Em outro canto da sala, perto das janelas, três estantes abarrotadas com os inventos do homem que saíra da sala, além de livros e caixas e mais caixas com peças dos tipos que ele mais usava.

Uma figura com braços, pernas, torso e cabeça estava encostada na parede perpendicular à das estantes. Seu criador não sabia, mas suas orelhas já estavam funcionando há alguns dias. Na noite anterior, seus olhos começaram a funcionar, apesar de não conseguir mexê-los. Por isso sabia que seu criador era velho, com cabelos brancos espetados que faziam um aro alvo na sua cabeça de têmpora a têmpora. A mulher, ele não sabia quem era, pois era a primeira vez que a ouvia. Sabia, porém, que os dois estavam falando dele.

Fazendo um esforço descomunal para algo que nunca havia se movido por conta própria antes, aquele invento com forma humanóide conseguiu levantar seus braços e jogá-los para frente. Para a sua sorte, os braços tubulares conseguiram aquentar bem o peso do seu corpo metálico, mantendo-o inclinado para frente sobre a borda da mesa. Força, porém, não era um problema tão grande quanto flexibilidade. Foi ainda mais difícil girar as juntas do pescoço para erguer a cabeça, uma vez que seus olhos fixavam apenas o que estava direta a sua frente. Tudo isso apenas para conseguir ver aquela peça da qual o seu inventor estava falando.

Exatamente na direção para a qual o velho apontara na estante, havia um pedaço de máquina um pouco maior que um punho, apoiado sobre um pedestal. A forma se assemelhava a algo entre um coração biológico e um coração simbólico. Isso ele sabia, pois o seu cérebro mecânico continha o conhecimento de dezenas de enciclopédias. Mas aquele coração não era como nenhum outro do qual ele detivesse conhecimento algum, pois possuía diversas engrenagens à mostra e válvulas ao longo de tubos que saíam dele, aguardando o momento em que fosse encaixado numa fonte de energia para começar a bombear aquele fluído amarelado e levemente viscoso que estava guardado num pequeno reservatório a seu lado, conectado pelos tubos.

Aquele era seu coração, a Invenção tinha certeza disso. Não era a toa que havia um espaço oco em seu peito exatamente daquele tamanho. Sabia que faltava apenas aquela peça para que ele fosse completo e pudesse andar livremente pelo laboratório, e quem sabe até para fora deste. Repassou pelo seu banco de dados tudo que seu inventor falara que ele ia poder fazer, sem saber que a Invenção podia ouvi-lo. Poderia pilotar aviões, construir outras máquinas, tocar instrumentos com o virtuosismo dos grandes mestres. Ele poderia fazer tudo aquilo - bastava que tivesse um coração.

De repente, alguma coisa desconhecida surgiu em seu banco de dados. Não era nenhuma informação que seu inventor tivesse colocado ali. Era algo novo, singular, que não havia sido armazenado, mas que havia surgido espontaneamente.

No mesmo instante, as pequenas válvulas do coração metálico na estante começaram a bombear o fluído viscoso para dentro das cavidades, e depois para fora delas. Os movimentos eram suaves e completamente sincronizados. Aquele pedaço de máquina pulsava lentamente, produzindo um tiquetaquear tão suave quanto três pequenos relógios suíços em harmonia.

Então a Invenção teve uma reação completamente inesperada, apesar de ser comum para os humanos. A visão do seu próprio coração funcionando sem que estivesse ligado a ele deixou-o tão maravilhado que um espaço percorreu todo o seu corpo, tilintando de ponta a ponta. Os braços fraquejaram e os cotovelos dobraram sobre seu peso. No instante seguinte ouviu um estrondo, como se um armário inteiro de panelas tivesse tombado. Agora ele só conseguia ver o teto e um pequeno pedaço da janela mais próxima, pois um de seus olhos não estava mais funcionando.

Do alto da estante, ainda podia ouvir seu coração pulsando, agora mais fraco e distante. A visão do outro olho ficou turva, e logo apagou completamente. Achou que suas orelhas logo parariam de funcionar também, pois quase não ouvia mais o pulsar das válvulas. Porém, percebeu que era seu coração que estava ficando mais fraco, pois os outros sons do laboratório continuavam como antes.

Quando o coração-máquina silenciou completamente, a Invenção sabia que sua consciência logo o seguiria. Antes que o cérebro mecânico se desligasse completamente, um último pensamento passou pela sua cabeça:

"Eu consegui... por um segundo... sentir."