sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O Inventor

O vento e a chuva fustigavam as janelas e entravam sem cerimônia no laboratório. A cortina dançava loucamente como se quisesse se soltar do varão. Raios e relâmpagos iluminavam a escuridão a curtos intervalos. O céu desabava lá fora.

Dentro do laboratório, o mundo do Inventor desabava. Jogado no chão com os membros em ângulos estranhos, sua maior invenção jazia despedaçada. O rosto de seu autômato de metal mirava a janela como que acusando o culpado de seu infortúnio. A cortina possivelmente engatara nas engrenagens de seu braço e puxou tudo para o chão. Um fim tão pequeno para anos de dedicação, pesquisa, investimento e esperança.

O Inventor chorou a morte do autômato que nunca estivera vivo. Chorou como se fosse um amigo próximo ou um parente querido. Chorou, chorou e chorou até seus olhos vermelhos não conseguirem derramar mais nenhuma lágrima.

Enfim, juntou o que restara do autômato e começou a demorada tarefa de separar todas as suas peças. As delicadas engrenagens e pistões que constituíam suas juntas estavam quase todas partidas, e os recipientes que formavam os órgãos haviam se despedaçado dentro do tórax metálico. Ainda assim, foi possível recuperar algumas peças muito valiosas. Por sorte, a principal delas ele nunca tivera a chance de encaixar no autômato e continuavam em segurança no alto da estante: o coração.

Levou meses de trabalho árduo e quase ininterrupto para reconstruir aquilo que havia levado anos para ser criado. O Inventor se isolou em seu laboratório, raramente encontrando outras pessoas ou realizando qualquer outra atividade que não fosse uma das necessidades básicas do corpo, como comer e dormir. Às vezes, fazia os dois no laboratório mesmo, dormindo numa poltrona quando o corpo estava cansado demais para continuar e comendo na mesma mesa em que trabalhava. Sua dedicação ao seu maior invento era quase febril, e os poucos amigos que o visitavam começaram a ficar preocupados com sua sanidade.

Quando finalmente terminou de reconstruir sua invenção, quase não conseguia acreditar. Ficou atônico, encarando o autômato com um sorriso débil por vários minutos. Faltava apenas uma peça: o coração. Nunca havia conseguido fazer um coração perfeito, capaz de sentir e se emocionar. Porém, agora mais do que nunca queria ver a sua invenção viva, andando, livre para se proteger das intempéries e interagir com o mundo. Com ele. Quem sabe, chamá-lo de pai.

Colocou o coração mecânico na cavidade que havia feito para ele. Conectou todos os tubos por onde correria o fluído oleoso que daria vida aos movimentos daquela máquina. Acionou todas as válvulas que bombeariam o fluído, e por fim acionou o marca-passo que fazia daquele um coração pulsante. Fechou o tórax do autômato com pequenos parafusos e ficou esperando.

Pareceu esperar uma eternidade para que os primeiros movimentos passassem de pequenos espasmos a tentativas reais de erguer um braço ou a cabeça. Quando os olhos luminosos abriram e sua invenção lutou para mover as juntas do pescoço de modo a encará-lo, o Inventor soube que havia sido bem-sucedido. Mesmo assim, nada naqueles anos todos de labuta e pesquisas o haviam preparado para as primeiras palavras daquela máquina que sentia:

- Obrigado por acreditar em mim.