terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Pequenez


Quando estava à procura de um grande amor, cultivava grandes amizades. Agora que o encontrou, procurava novamente aqueles grandes amigos. É quase aquilo que se diz das mulheres, que quando têm cabelo liso o querem encaracolado, mas se nasceram com cacheados insistentemente o alisam.

O fato é que ainda assim vinha evitando os mais próximos, seus familiares e amigos mais recentes. Parecia que estava sempre à procura de algo, e nunca o achava em ninguém. Algo havia se perdido, e não sabia quando, nem o que, nem por quê.

Não demorou muito e, como lhe era característico, começou a pensar que o problema poderia estar em si. Faltavam-lhe assuntos em conversas, empolgação em comentários e passeios, até andava rindo e sorrindo menos.

(Quando era criança olhava os adultos nas ruas e indagava-se por que estariam todos sempre com uma expressão séria. O que custava sorrir? Evitavam mesmo olhar-se. As crianças não; elas sempre tinham uma expressão amena ou sorridente no rosto. Quando viam uma semelhante, encaravam-se com uma curiosidade profunda, de quem se busca no outro.)

Sabia menos que os outros, ah, isso sabia. Sempre por último ouvia a notícia, sempre aquela pessoa que ignorava algum aspecto do problema, aquela que parecia não melhor aproveitar o tempo, ou que não possuir o melhor rendimento. Ao menos pintava melhor que a maioria, ah, se pintava. Mas só.

Mas algumas pessoas, familiares, amigos mais recentes, também não ajudavam. Era cada vez mais comum vê-los exibir “grandes” feitos, e o outro ali tentando sobreviver o angustiante dia-a-dia. Expunham pensamentos elaborados, em sintonia com o que estavam comentando as melhores mídias, e o outro apenas com suas elementares sensações de que havia algo de muito errado naquilo tudo, a começar por essas pessoas elaboradas demais.

(Na infância sempre havia aquele com a melhor mochila e o estojo mais cobiçado, mas no final do ano o material de todos estava gasto igual. Ou eles que se acostumavam. Mas quando conversavam, eram palavras tão despreocupadas que emanavam sinceridade e simplicidade. Nada que as briguinhas estragassem.)

Sempre quando parava para estudar um pouco de algo, revoltava-se, pois parecia que justamente quem mais precisava estudar menos podia estudar. Tinha muita gente à toa com tempo de sobra para estudar, e o outro ali, todo doído por todo o mundo.

E quando pensava nos problemas do mundo, via tanto a se fazer! E era tanta coisa impossível para ele, aquele pequeno impotente. Sempre que podia fazia a diferença aqui e ali, mas coisa grande mesmo, podia até imaginar, mas não se sentia capaz de fazer não. Era preciso alguém muito bem preparado para realizar grandes mudanças, e sabia que tinha muita gente muito melhor que ele para o trabalho. Até aquelas pessoas elaboradas demais.

Não bastasse isso, ainda havia a falta de tempo. Porque uma coisa era poder escolher um trabalho no qual se pudesse fazer alguma diferença; a outra era ter que se contentar com o que aparecesse, pois emprego não está coisa fácil de se arranjar. Tudo girava em torno do trabalho e do que precisava fazer para se manter nele ou arranjar outro. Tudo. Então arranjar tempo para problemas maiores que os que já tinha era quase um ingresso para insanidade. Quer dizer, não conseguindo construir a própria vida, como poderia realizar grandes feitos para a alheia?

... (quase) sem querer, o pequeno se apequenava, e se apequenava tanto diante do mundo, que estava prestes a ser apenas mais (nenh)um (indiferente e comum).