sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Vazio (parte 2)

Ela vagava pela cidade sem nada saber. Não conhecia ninguém ali, nenhum lugar, nenhuma história, nenhum passado, nada. Até sua própria identidade ela desconhecia.

Porém, ela sabia de uma verdade: todas as pessoas tinham um buraco no meio do peito. Algumas o enchiam como podiam, com coisas e até outras pessoas, mas algumas o mantinham vazio... incrivelmente, por opção. Talvez, a melhor opção.

Ela também tinha esse vazio, mas não apenas no peito. Sua mente era um mar alvo com pequenas cenas que ela vivenciara nos últimos dias. Não tinha nenhuma outra lembrança de antes disso. Era como se tivesse acabado de nascer, mas sem passar pela época de descobertas da infância. Ela sentia que já devia saber muita coisa, embora não soubesse o quê.

Sentindo-se desolada e perdida, a mulher sentou na beira de uma fonte de alguma praça daquela cidade perdida no meio de algum mapa. Ficou ali observando as pessoas que passavam. Sentia o vazio em seu peito diminuir ao fazer isso, embora não pudesse vê-lo, e sem saber o porquê. Ficou ali por horas. Talvez um dia inteiro. O sol já ia baixo quando um bando de pássaros gorduchos e arrulhantes passou por ela num vôo rasante, indo atrás de um punhado de quirera que alguém jogara ali perto. A afobação das aves resultou em muito barulho e encontrões no ar, fazendo algumas penas se soltarem de seus donos.

Uma dessas penas caiu calmamente na água da fonte, e a mulher acompanhou sua lenta trajetória com o olhar. Na água, viu seu reflexo, e o brilho em seu olhar era intenso. Com a luz, e como a luz, as lembranças voltaram todas de uma vez. Ela entendeu quem ela era da mesma forma que se entende outra pessoa pelo olhar sincero. Ela lembrou de toda sua longa vida e de tudo que havia feito até aquele dia. Ela se reconheceu em seu passado. Ela viu seus desejos e temores e capacidades.

Ela era A Senhora. Pura e simplesmente. Completamente, outra vez. Eternamente com aquele maravilhoso buraco no peito. Eternamente humana.