sexta-feira, 16 de março de 2012

Carapuças

[Abrem-se as cortinas...]

Um homem com as costas curvas e o olhar cabisbaixo anda por aí. Andando e tropeçando, sempre pensando em seus problemas, acaba por esbarrar-se com um amigo na rua. Este amigo, feliz em vê-lo, saúda-o:

- Há quanto tempo! Como anda a vida?

- Nada bem - responde o primeiro homem, melancolicamente. Estou com um problemão que não sei como resolver.

- Ora, conte-me o que é. Se houver algo que eu possa fazer para ajudar, não hesitarei em fazê-lo.

O homem triste então tira do bolso de seu paletó um relógio-despertador novinho em folha, com os sinos no alto reluzindo de tão polidos.

- Veja, o problema é este relógio. Ele não funciona.

O amigo toma-lhe o relógio das mãos e examina-o rapidamente. O tique-taque era bem audível e, até onde podia perceber, o ponteiro dos segundos girava a uma velocidade normal, eliminando a possibilidade de o relógio se atrasar ou adiantar em demasia. Até programou o despertador, que tocou em menos de um minuto, no exato instante programado. Por fim, sem conseguir determinar o problema, devolveu o relógio ao amigo.

- Ora, pois não consigo descobrir o que há de errado com ele. Tente levar ao vendedor e trocá-lo, ou peça que o conserte.

- Veja bem, o problema é justamente que ele faz o que deveria fazer, não o que eu quero que faça.

- E o que você quer que ele faça?

Diante da pergunta, o homem triste abre uma bolsa que trazia pendurada no ombro e tira de dentro dela um gordo e amarelo abacaxi.

- Faz dias que quero comer este abacaxi! Comprei o relógio especificamente para isto. Mas não importa o quanto eu o abra, mecha nas peças, programe e dê corda, ainda não consegui tirar sequer uma fatia do abacaxi.

- Amigo, já sei qual o seu problema! O que você precisa é de um descascador de abacaxis, não de um relógio.

- Pois há mesmo de ser?! - perguntou o homem, espantado.

- Tenho certeza do que digo, pode confiar!

- É... É uma idéia um tanto razoável. Mas agora que comprei o relógio, vou tentar usá-lo mais algumas vezes. Quem sabe na trigésima sétima tentativa não dou sorte!

- Bem, faça como preferir.

Os amigos se despedem, cada qual seguindo seu caminho pela rua.

E o abacaxi apodreceu com o relógio ao seu lado.

[Fecham-se as cortinas...]


Esta pequena peça estreou muitos anos atrás, num reino que é hoje uma terra de ninguém. Ao fim do primeiro ato, pouquíssimas pessoas riam, e umas tantas forçaram um breve riso tímido para mostrar aos colegas que haviam entendido a piada, mesmo que este não fosse o caso.

Em meio à platéia, sentados em lugares de honra, encontravam-se duas figuras muito conhecidas de todos no reino: o Rei, em pessoa, e o Bobo-da-Corte, com seu traje pouco discreto de sempre. O segundo soltava uma sonora gargalhada que, de tão alta, até intimidava as fracas risadas ao seu redor. O Rei, por outro lado, permanecia de braços cruzados e de cara fechada. Mal esperou o Bobo terminar seu riso para falar:

- Esta peça não é engraçada. Não entendi nada do diálogo. Simplesmente não faz sentido.

- Logo percebe-se que não entendeu.

- E tu, por acaso entendeste algo ou apenas ris de tudo?

- É uma questão de carapuças, entende? Quando vejo alguém usando uma carapuça que lhe serve, dou risada.

- Mas não há ninguém de carapuça neste teatro. Tu és um tolo mesmo! Por isso eu sou o Rei deste reino e tu, meramente o Bobo-da-Corte.

- Exatamente!