terça-feira, 6 de março de 2012

Estranhitudes (ou Estranhas Atitudes)

A Moça chegou em casa depois de uma manhã de sábado cansativa no trabalho. A burocracia de todo o projeto estava deixando-a careca com o estresse, o que era bem preocupante para alguém tão jovem. Precisava descansar. Enquanto deixava as chaves sobre a mesinha do hall de entrada, sentiu um cheiro bom de café vindo da cozinha; exatamente o que ela precisava!

No meio do caminho, porém, deparou-se com uma visão bastante atípica na sala de estar. Seu Rapaz estava sentado na borda do sofá, completamente concentrado na tarefa de empilhar cartas de baralho sobre a comprida mesinha de centro. Ambos se murmuraram "olás" distraídos. A Moça esqueceu-se do café e ficou observando a base dos castelinhos de desfazerem assim que o Moço colocava outra dupla de cartas sobre a primeira camada.

- O que está fazendo? - ela perguntou, como se a imagem não fosse auto-explicativa.

- Estou construindo um castelinho de cartas. Ou, pelo menos, tentando.

E o Moço se distraiu novamente com as cartas que insistiam em não parar de pé.

Aquela resposta obviamente não foi suficiente.

- Por quê? - perguntou a Moça, ainda não satisfeita com a explicação.

- Eu vi no jornal que um cara bateu o recorde de maior castelo de cartas já feito sem cola e outros adesivos. Quero bater o recorde dele.

Agora sim, aquilo fazia algum sentido. Isto é, desconsiderando que em todas as tentativas o Moço mal conseguia completar metade do segundo andar do castelo antes que tudo viesse abaixo. Que ele tivesse adquirido um interesse repentino por castelos de cartas após ler a notícia, era compreensível, mas que quisesse bater o recorde já era um tanto quanto exagerado. E o Moço raramente era exagerado.

Tentando pensar em algo menos estranho e mais rotineiro, a Moça perguntou:

- Você fez as compras da semana?

- Sim, e já guardei tudo. Comprei pimentões. Estou pensando em fazer pimentões recheados amanhã para o almoço.

Outra coisa estranha. Ele detestava pimentões. Ela, adorava. Mas nunca, em toda a sua vida, a Moça vira o Moço comer e muito menos cozinhar pimentões. E ela o conhecia desde que eram crianças muito pequenas.

Aquilo tudo estava deixando a Moça inquieta e apreensiva, mas ela não sabia explicar exatamente o porquê.

- Você está estranho, querido - ela disse enfim, depois de avaliar a situação por um longo momento.

- E qual é o meu normal? - ele perguntou distraidamente, finalmente passando para o terceiro andar do castelo de cartas.

A Moça ficou em silêncio por pelo menos dois minutos. O castelo de cartas caiu e o Moço o recomeçou. O único som que se ouvia era o tiquetaquear do relógio de madeira sobre a lareira, mas isso não afastava a impressão de que o tempo parecia estar suspenso naquele instante peculiar da vida dos dois.

Aqueles dois minutos pareciam uma eternidade enquanto a Moça se perguntava quem era aquele estranho sentado no sofá a sua frente. Tinha o rosto de seu marido e o jeito de falar do seu amigo de infância, mas suas ações não pareciam coerentes.

Finalmente, saindo de sua bolha de apreensão, a Moça se sentou ao lado do Moço e ajudou-o a juntar as cartas esparramadas sobre a mesa depois de mais um fracasso. Enquanto ele remontava o castelo, ela ia lhe passando as cartas que ele precisava.

- Eu estava precisando de um hobby novo, sabe - ele disse, sem olhá-la. - E quero ficar realmente bom nisso. É provável que eu nem consiga chegar perto do recorde atual, mas se eu chegar pelo menos na metade do caminho, já vou ser bem bom. Quem sabe eu até consiga montar um castelinho de primeira!

Falando isso, o castelinho se desmontou nem bem ele havia terminado de montar a base. A Moça não falou nada, mas um sorriso se insinuou no canto de seus lábios.

- E eu também queria fazer alguma coisa pra te agradar - o Moço continuou timidamente. - Eu sei que você adora pimentões e reparei que faz tempo que a gente não come, por isso resolvi fazer isso pro almoço de domingo.

A Moça sorriu docemente e beijou-lhe a testa demoradamente. Ele olhou-a com surpresa, mas também sorriu. Mesmo tendo esbarrado na mesa com o susto, o castelinho de cartas não caiu.

"Agora sim estou reconhecendo o Menino com o qual me casei."