quarta-feira, 28 de março de 2012

A Mensagem na Garrafa Era...

Ela foi trazida por ondas suaves que cobriam metade daquela praia estreita a cada investida das águas rasas. Uma gaivota tentou puxar-lhe o pedaço de cortiça, mas as algas que se prenderam nela atrapalharam a vaga tentativa do animal. O sol e as estrelas se refletiram em seu invólucro verde-transparente por dias seguidos, sem que algo sequer ordinário ocorresse.

Então, um dia, algo ordinário se transformou em um momento extraordinário.

Uma caminhada, nada mais que isso. Uma dentre tantas caminhadas que fizera na vida. Uma caminhada onde o objetivo principal não era chegar a algum lugar, mas sim perder-se e, quem sabe assim, se encontrar.

Era apenas mais um dia na vida do Viajante. Mais um dia sem rotina. Porém, até mesmo a aleatoriedade de eventos pode ser tediosa quando nenhum desses é surpreendente. Também existe calmaria em meio ao caos. Este era um desses dias, meio à toa, meio despretensioso, meio ansioso; um dia em que se espera por um evento que pode não acontecer.

Foi naquela prainha pedregosa, naquela caminhada, sob aquele céu azul e ao lado daquele mar calmo que o Viajante levou o maior tombo de sua vida. Tropeçou em umas algas que estavam presas a algo semi-enterrado na areia. O chute acidental que dera na coisa relevou um pedacinho de vidro verde arredondado. A curiosidade desenterrou o resto: uma garrafa inteirinha, com rolha de cortiça na ponta, meio bicada, e um papel enrolado com uma fita vermelha dentro.

"Uma mensagem numa garrafa!", pensou o Viajante, chocado e ao mesmo tempo extasiado. "Achei que as pessoas não faziam isso na vida real."

Tirando a rolha com dedos trêmulos, o Viajante tirou o papel de dentro da garrafa e fitou-o por alguns instantes. Aquela mensagem tinha, provavelmente, viajado tanto quanto ele pelo mundo. Quantas praias teria encontrado, por quantas baleias passou no oceano, de quantos tubarões e redes de pesca teria escapado para chegar até ali? Ou será que estava ali há apenas dois dias, tendo sido jogada ao mar daquela mesma praia e para ela retornado? Que caminhos ela percorreu arrastada pelo vento e pelas correntezas?

Dando-se conta de que só descobriria isso tudo (ou não) se de fato lesse a mensagem que a garrafa trouxera até aquela praia, o Viajante desatou a fita vermelha e, prendendo a respiração, desenrolou enfim o papel de pontas amareladas...