terça-feira, 10 de abril de 2012

Ana Rosa


Ana boa, Ana fiel. Era a Rosa.

Ana Rosa tinha uma roseira no jardim, e acreditava ser possível comer os frutos nos quais as rosas se transformavam. Mas não era por isso que ela era diferente das outras pessoas.

É que ela era íntegra, apesar de não ser mais criança (tecnicamente não; mas, como todos, guardava algo de criança em si. Um algo acima da média, na verdade). Sincera até demais.

Por isso, depois que depositava sua confiança em alguém, era capaz de revelar seus maiores anseios e medos rapidamente. Já nos primeiros cinco minutos de conversa. Tudo da forma mais sincera possível. Não se preocupava com o que pensariam dela (por que, sabemos, até os próximos pensam), se alguém poderia usar isso contra ela alguma hora, nenhuma consequência. Era ingênua, sim. Mas era ela que estava ali, por inteiro. Sem ressalvas, segredos ou mentiras. Aquela era ela.

Depois de adultos não estamos mais acostumados com uma conversa assim, cheia de felicidades e tristezas íntimas. Gostamos de nos livrar logo desse campo perigoso respondendo, quando perguntam como estamos, “tudo bem!”. E passamos ao tempo. Ela não.

Como numa pintura cheia de contrastes de cores, sombras e luzes, ela passava de sua vida de alegrias à de tristezas. Ouvimos seus progressos e esforços diários, suas conquistas. E ouvimos seus conflitos em casa, xingamentos da mãe, surras do pai, incompreensão de alguns colegas. Tão injusto existirem essas sombras do contraste. Ela, tão delicada e sensível.

Com medo de concretizar o indizível, a dor mais indesejável, o desprezível, o sofrimento do outro, saímos dessa conversa mudos. Mas carregando uma rosa nas mãos.