sexta-feira, 27 de abril de 2012

Luzes no Lago

A Torre brilhava! De cada uma de suas janelas, uma suave luz se insinuava noite afora. Prestando atenção, era possível notar no beiral de cada uma, uma pequena vela branca. A luz dessas velas se refletia no lago aos pés da esguia construção de pedra, como um perfeito e calmo espelho. Não havia vento nem nuvens. Seria uma noite perfeita!

Por trás da Torre, estendia-se o vasto negrume pontilhado de minúsculas estrelas. No lago, essa imagem era recortada pelo negror das pedras, apenas distinguível do céu pela larga luz das velas nas janelas.

E pensar que as estrelas eram infinitamente maiores que essas velas, e, ainda assim, tão pequenas se comparadas à luz que está mais próxima de nós. No final das contas, são as velas que aquecem e iluminam nossas noites, com sua cera e pavios rudimentares, apesar do brilho intenso dos astros.

"Assim como as coisas que estão mais próximas do coração."

Do outro lado do lago, três figuras encapuzadas observavam a noite. A Senhora, com vestes roxas e capa preta, estava ladeada por outras duas figuras com vestes semelhantes à sua. A Senhora de Vermelho, com vestes carmesins e bordados dourados, do seu lado direito, exibia nos olhos azuis um largo sorriso. Já o Senhor de Verde, com roupas escuras mais práticas e uma capa verde-esmeralda, mais curta que a das moças, aguardava, solene, o momento certo. Os três observavam o passado do universo escrito nas estrelas, recordando do passado escrito em suas memórias.

"É agora!"

- Mais um ciclo, meus amigos! - começou a Senhora. - Mais um ciclo teve seu início, um ano atrás. Mais um ciclo teve seu meio. Suas batalhas, suas vitórias e suas derrotas. Suas alegrias e suas dores. Suas conquistas. Seus valores. Suas lições. Nesse meio, pessoas vieram, foram e ficaram. Nesse meio, muitos amores. E agora, mais um ciclo chega ao fim. Fechemos este ciclo, mas que nossos corações e mentes continuem sempre abertos a novas experiências e emoções. Cada momento passado deve ser tratado como um tesouro. Cada risada dada, como uma dádiva. Cada lágrima emocionada, uma jóia rara. Não esqueçamos jamais o que fizemos aqui, pois as palavras que escrevemos são mais eternas do que nós mesmos.

O Senhor de Verde deu um passo à frente. Tirando uma vela bem gordinha de um bolso interno de sua capa, ele se ajoelhou na beira do lago. Ali, havia três pequenos barcos redondos de madeira belamente marchetada geometricamente com tons claros e escuros. Ele colocou sua vela no barquinho e a acendeu. Era uma vela de um bordô tão denso, tão denso que parecia inteiramente feita de cor, e não de cera. As bordas eram mais claras, puxando para o vermelho, mas o seu miolo era incrivelmente escuro. Então, colocando o barquinho na água, disse:

- O vermelho é pela emoção, pelo turbilhão de sentimentos que cada um de nós carrega dentro de si.

E empurrou o barquinho na água, que seguiu calmamente um curso reto até o meio do lago.

Depois, foi a vez da Senhora de Vermelho. Sua vela era mais esguia e comprida, em tom salmão, e com pequenas pedrinhas douradas nas bordas.

- O rosa-alaranjado é pela família e seu amor caloroso e reconfortante. O dourado são pelas memórias, para sempre marcadas fora do tempo, e a magia dos momentos.

Depois ajoelhou-se e colocou sua vela num dos outros barcos de madeira, também empurrando-o para dentro do lago depois de acendê-la.

A Senhora, então, deu um passo a frente e ergueu sua vela como se fosse uma oferenda ao lago. Sua vela era mais baixa que a da Senhora de Vermelho e menos robusta que a do Senhor de Verde. A cera lilás era lisa, apenas com dois enfeites de folha que pareciam dançar no ar; uma delas era branca e a outra de um verde bem claro, ambas levemente prateadas.

- O verde é pelos sonhos que nunca morrem, e o branco é pela lua que guia e protege esses sonhos. O lilás é pelas lições em nossos caminhos e pelo efeito transformador da vida.

Ela se abaixou, fazendo o mesmo que seus amigos.

As três velas pairaram sobre a água do lago, dançando em volta umas das outras. À medida que se afastavam, sua luz diminuía, mas não chegavam a se confundir com a imagem refletida das estrelas nas águas escuras e lodosas.

"Mais três estrelas para o firmamento. Três estrelas que estarão sempre próximas de nós, em nossas memórias e aquecendo nossos corações."