sexta-feira, 6 de abril de 2012

Pé de Vento

A casa vivia fechada.

["Vivia" talvez não seja um termo muito bom para a situação.]

A casa passava o tempo todo fechada.

[Agora sim...]

A casa passava o tempo todo fechada. Seu inquilino - um senhor franzino já de idade avançada - passava o dia executando pequenas tarefas rotineiras. Lia o jornal todas as manhãs. Comia um ovo cozido com qualquer outra coisa no almoço. Alimentava seus dois gatos pela tarde. Lia mais um bom pedaço do jornal. Depois de jantar qualquer coisa, acendia seu cachimbo e ligava seu antigo radinho para ouvir as músicas que fizeram sucesso nos seus tempos de mocidade. À noite, ainda com o rádio ligado, dedicava-se à construção de miniaturas de barcos à vela dentro de enormes garrafas de vidro. Então, ia dormir.

Há tempos vivia assim. Desde que sua mulher falecera, não mudara nenhum móvel de lugar, não abria as janelas para arejar os ambientes e apenas tirava o pó dos seus barcos engarrafados. Uma vez por mês, uma vizinha que tinha dó dele aparecia para fazer a faxina e trazer as compras do mês, e as conversas dos dois eram sempre as mesmas, ou pelo menos muito semelhantes entre si:

- Como vai? Construiu muitos barcos este mês?

- Sim, terminei aquele em que estava trabalhando da última vez que esteve aqui. Veja este novo modelo que estou montando agora.

Aquele era o único dia no mês que a casa respirava um pouco de ar puro. O senhor, porém, ficava trancado em seu escritório durante todo o processo de limpeza e arrumação. Só saía de lá quando a vizinha ia tirar o pó das estantes. Era quando ele ia para o quarto e fechava novamente todas as janelas que encontrava abertas.

E assim seguiam-se os dias.

Até que uma vez, a bondosa vizinha esqueceu de trancar uma das janelas da sala. E ficou assim, até que um dia um dos gatos, curioso, foi brincar com o fecho de metal, que agora pendia livremente, e em sua brincadeira empurrou a veneziana de madeira. A janela escancarou-se e o pobre do gato caiu na floreira do quintal. Um mundo inteiramente novo se descortinou à sua frente, e ele partiu para explorar a vizinhança inebriado com as novidades.

O senhor só foi dar-se conta da falta do animal quando era hora de alimentá-lo. O outro gato apareceu, mas o mais novo, não. Aquilo fugia inteiramente da sua rotina. Concluiu que devia haver algo errado.

Procurando penosamente o bichano debaixo de todos os móveis, viu logo que a janela da sala estava aberta. Olhando para fora, viu que ventava muito. Mas não era um vento que anunciava chuva; era apenas um vento abafado, impetuoso, cujo único propósito era refrescar as árvores naquele verão. O som que fazia ao balançar as folhagens parecia um sussurro muito alto, do tipo que apenas as pessoas que prestavam atenção conseguiam entender.

- Você tinha razão, querida - disse o senhor, lembrando-se da falecida esposa em seus últimos dias de vida, no hospital. - O mundo continua respirando. E eu também. Talvez... talvez eu devesse deixar essa velha casa respirar um pouco também.

De súbito, o bichano fujão pulou no parapeito da janela, assustando o velho. Então ele pulou para dentro da casa e enroscou-se nos seus calcanhares, com o típico miado de quem está com fome e arrependido de ter ficado longe por tanto tempo.

- Oh, aí está você! Me conte da sua pequena aventura. Amanhã, quero visitar todos os lugares em que esteve. Sim, vamos passear um pouco. Eu, você e seu irmão. Quem sabe ir até o parque... Faz tempo que não deito na grama.