sexta-feira, 11 de maio de 2012

Monólogo

"- Qual é o motivo de reviver eternamente certas estórias? Não são apenas estórias? Não consigo crer que isso possa, por alguma desventura, ser verdade. E como seria, se apenas a mais vaga lembrança ou indagação sobre seu suposto desenrolar torna cada segundo corrente cruel para o pensamento?

- Não creio que uma estória possa ser descartada assim de maneira repentina e fugaz se seus entremeios não se esclarecem total e definitivamente. Se cada intenção ou cada anseio de seus personagens não morrem ou que não são saciados. Digo isso porque se ainda houver uma singela esperança, qualquer uma, há, pois, motivo para que a estória continue sendo escrita, mesmo que silenciosamente, nos cantos empoeirados da mente do autor. Para que não seja lida e ouvida por algum outro ser humano sequer.

- Mas de que modo isso poderia ocorrer? Se não há interlocutor, ouvinte, leitor, ou mesmo um eu-lírico imaginário, como pode haver estórias? Não gostaria de chegar a um nível de introspecção tal a ponto de dar uma sobrevida pálida e cinzenta a uma história, apenas para um eu-lírico que não existe mais, à sua memória.

- Gostaria de novas histórias!

- E aquele personagem antigo, que ainda está lá, aguardando um final para sua jornada? Mesmo que essa seja silenciosa e estável e já esquecida por seu autor já faz algum tempo, suas mãos ainda suam de ansiedade apenas ao ouvir menção às próximas linhas, ou com alguma esperança, às próximas páginas. Os seus anseios ganham algumas palpitações a mais de uma sobrevivência maldita.

- Talvez seja melhor matá-lo de uma vez? Quem sabe? Uma morte digna pode até trazer alguma paz para seu coração. Talvez ele não queira mais sobreviver inerte, esperando um suspiro que o faça dar mais um passo ou dois, sendo otimista.

- Talvez não seja mais o momento de despertá-lo. Talvez seja um alívio não o vê-lo nunca mais durante minha vida!

- E que ele não ocupe mais as folhas em branco onde deveriam estar sendo escritas novas histórias, viscerais, que podem não fazer diferença para certas pessoas, mas, sim, para o autor, que vibrará a escrever cada sílaba, formulará em voz alta cada diálogo. Os personagens serão tão vivos quanto o autor, que tomará para si suas dores, que se apaixonará perdidamente por sua amante, se emocionará com cada passo dado e rejubilará triunfante no final de tudo. Quando não há mais nada para se contar.

- No final de tudo, quando o autor morre junto com a história. Sem deixar viúvos.

- Novas histórias! Para um novo eu-lírico! Gostei disso!"

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Não há maneira melhor de começar uma nova fase do que celebrar! Que este seja o primeiro de muitos textos!