sexta-feira, 18 de maio de 2012

O pequeno baralho

- Filha, vem aqui um pouquinho?

Ele falou de um jeito diferente, reservado, quase solene. A menina foi com um tanto de cautela, mas curiosa.

Naquele quarto dos mais silenciosos da casa, estava uma gaveta na qual o pai guardava suas coisas mais importantes. A menina nunca mexia ali, a não ser que alguém lhe pedisse para buscar algo, e ainda assim, e mesmo curiosa, não ousava mexer nem olhar para além do objeto requisitado.

Pois era essa gaveta que estava aberta diante do pai. Ele olhava para dentro dela pensativo, em silêncio, com algo escondido nas mãos. A filha aguardou em igual mudez.

- Filha, esse é um mini baralho com que o pai costumava brincar quando tinha a sua idade – e agora que ele abria as mãos, ela via uma pequenina caixinha com desenhos de baralho. Achou bonitinho, e nunca até então vira cartas de baralho tão miúdas assim. Como ela era.

- Você veja, isso já faz quantos anos, e o baralho está inteiro, e sem faltar nenhuma carta. O papai cuidou muito dele.

Fez uma pausa, como quem toma coragem, e fez a pergunta:

- Você quer ficar com ele?

A filha o olhou surpresa. Ela estava ali como quem escuta uma explicação num museu, interessada pelo objeto, mas distante. Agora o objeto em questão podia ser seu. Não entendia por que o pai fazia isso, e para ela, não para seus outros irmãos. Não sabia o que queria.

- O papai cuidou muito dele. Se eu te der, você vai cuidar dele?

Ela preferiu acenar discretamente com a cabeça.

- Só que assim, você promete que não vai deixar ele jogado por aí, como você faz com os seus brinquedos? E que vai guardar ele sempre dentro da caixinha, não perder nenhuma carta?

Era tanta responsabilidade que ela não sabia o que dizer. Será que ela podia com isso?

No entanto, havia algo de precioso. Ela se sentiu importante cuidar de coisa tão valiosa. Só ela se encarregaria da relíquia do pai, e imaginou cuidar dela para sempre, quem sabe até passá-la para seus filhos.

Mas se lembrou dos seus outros brinquedos que sempre estragavam ou se perdiam. Seria com esse diferente mesmo? Parecia algo para além do seu mundo esse cuidado todo. Mas se não o aceitasse, nunca saberia.

- Vou cuidar dele sim, pai.

E levou o baralho.

Meses depois, sobravam poucas cartas; anos depois, uma vaga memória dele num sonho.