terça-feira, 8 de maio de 2012

Ofício

Sentou-se à frente de seu cavalete, ao lado da janela. A vista dava para um pequeno bosque do bairro. Mas não a mirava. Procurava algo do lado oposto, sob a penumbra, remexendo os mais diversos objetos empilhados numa mesa. Instantes depois, encontrou o que queria.

Acendeu com um isqueiro uma vela. A luz imediatamente invadiu o ambiente, e fez suas pálpebras estreitarem, estranhadas. Suas mãos deixaram a parafina iluminada sobre a mesa, e seus olhos voltaram-se ao seu cavalete.

Agora via a tela branca que nele esperava. Agora podia escrever.

Escolheu cuidadosamente as tintas, e com ânsia posicionou o lápis entre os dedos. E começou a tracejar a tela, definindo os contornos do conto. Media as linhas formando a trama, apagava cantos e arredondava curvas frases. Com o limpa tipos suavizou o traçado para em seguida aplicar a tinta. Trocou o lápis pelo pincel, com o mesmo desejo.

Com muito esmero, começou por tingir as sombras. Era nesse momento que definia a reação dos personagens, superava os ensaios a lápis e preparava a tela para a vida de cores. Não descansou até ficar satisfeita com o último traço negro.

Passou às cores e luzes. A imagem se completava, ainda que seu destino fosse desde já a eterna incompletude, na qual cada um procuraria suas próprias respostas. A poesia surgia no encontro das luzes com as sombras. O olhar vago para o chafariz, o caminhar silenciosamente para causar surpresa, o conversar no banco da praça. O ouvir, o falar costurando esculpidas e espontâneas palavras, o imaginar em voz alta, o poente e o nascente. Pintou cuidadosamente o dégradé de sensações, intensificou o contraste de sentimentos. Buscou palavras nos dicionários, tons nas misturas sobre a paleta.

Lavrou a noite inteira. Quando o céu entrevisto pela janela começou a dar sinais de um ligeiro clarear, se deu por satisfeita com a obra, pincelando sua última palavra. Suas pálpebras pediam descanso, e, a caminho da cama, nem se incomodou com a fraca luz bruxuleante que iluminava parte do cômodo. Restava sobre a mesa apenas um toco de vela.