terça-feira, 15 de maio de 2012

Quando

A Menina e o Menino aproveitavam mais uma tarde no parque para procurar formas nas nuvens. Mas o dia não estava colaborando muito. Era inverno, perto da hora do almoço, e logo o céu se tornou de um azul brigadeiro tão forte que eles foram forçados a acabar cedo com a brincadeira.

Depois de discutirem sobre se gostavam ou não da professora substituta de geografia, ficaram um tempo em silêncio, deitados, apenas olhando o céu. O Menino, normalmente muito pensativo, deixou sua mente divagar longe, mas tão longe, que logo chegou na sua vida adulta. Foi então que, aparentemente de forma aleatória, ele perguntou:

- Quando nós vamos ser adultos?

- Quando nós formos, oras! - respondeu a Menina, como se fosse algo óbvio.

- Mas quando é isso?

- Depois da adolescência. Minha mãe diz que é a pior fase. Meu irmão está nela, e vive brigando com ela. A mãe diz que mal pode esperar pra ele ficar adulto.

- Mas quando vai ser isso? Quando ele sair da escola? Quando arranjar um emprego? Quando casar?

- Acho que não é quando ele começar a trabalhar. Já ouvi meu pai reclamando das crianças que trabalham, porque isso é errado. Então não tem como você virar adulto assim.

- E também não é saindo da escola. Minha irmã mais velha acabou de entrar na faculdade e minha mãe vive falando que ela é imatura.

- O que quer dizer "imatura"?

- Não sei, mas minha irmã age como uma criança pequena, então deve ser o contrário de ser adulto.

O Menino não se achava mais tão pequeno com seus oito anos; certamente era maior do que quando tinha quatro e tinha as marcas de giz na porta do seu quarto para provar. A Menina também pensava assim.

- Então a gente deve ser adulto quando casa - concluiu a Menina com um ar bastante sábio. - Nunca vi um pai e uma mãe que não fossem adultos.

- É, tem razão.

Ambos ficaram em silêncio por um tempo, pensativos. O Menino então se lembrou dos seus pais falando que quando um casal, pra dar certo, os dois tem que ser muito amigos um do outro. Mas a Menina era a sua melhor amiga, e a última coisa que ele queria era perder a amizade dela quando crescesse.

- Ei - ele a chamou. - Ainda vamos continuar amigos quando formos adultos, certo?

A Menina sorriu, pois a resposta para aquela pergunta era tão óbvia quanto a da primeira.

- Os melhores! - ela disse, colocando a sua mão sobre a dele e apertando-a forte. O Menino sorriu aliviado.