terça-feira, 22 de maio de 2012

"Um mundo inteiro na minha cabeça"

E noite adentro o velho mantém seu pulso firme, enquanto traça contornos precisos de luz em sua obra prima. Não importavam quantas horas ainda eram necessárias para seu término.

Tudo estava ali, claro, visível, disposto em um espaço infinito, dentro da mente do senhor. Inalcançável. Mas a cada segundo tudo se torna cada vez mais palpável com as pinceladas precisas com tinta clara. Silencioso, já seguia por horas este ritual. Iluminado à uma luz amarela não muito abundante vinda de um abajur localizado no canto do pequeno atelier.

É simpático este atelier, com móveis que condizem com a idade do senhor, que nunca havia se mudado depois de que, quando jovem, ocupara este espaço. Há uma vitrine bastante rebuscada, em madeira esculpida, que combina harmoniosamente com a construção vitoriana e seus tijolos aparentes.

Foi através dela que cada movimento do pintor é acompanhado pelo jovem Nicolas. Mal conseguindo alcançar o peitoril da vitrine, o menino de cabelos loiros e lisos estava acima de alguns tijolos por ele empilhados. Ele olhava atento, sem pestanejar, as cores, os traços formando a obra. Havia horas que ele estava paralisado ali. Devia ter voltado da escola direto para casa, na hora do almoço. Mas não podia deixar seu posto, não se importava tanto com o resultado final, mas o ritual inconscientemente o hipnotizava.

Isso só poderia estar acontecendo com uma criança. Livre.

Silenciosamente o todo aquele mundo construído mentalmente tomava forma. Colorido, vibrante, diante do olhar mesmerizado do menino.

E de repente estava tudo lá!

O senhor descansou o pincel no espaço próprio para ele em seu cavalete e repousando contemplava a sua criação. Era tudo perfeito. Não faltava nada na tela de aproximadamente um metro por um metro e meio. Seus braços sentiam agora o cansaço acumulado de um dia inteiro de trabalho ininterrupto. Se segurava para não olhar para trás, para o menino que estava lá, há horas o observando - e ele já sabia disso há um tempo. Mas para que tirá-lo de lá?

De fato não havia necessidade. Tudo que Nicolas fazia era contemplar e imaginar como seria maravilhoso ter um mundo inteiro desenhado dentro da sua mente. Mal ele imaginava a naturalidade de tudo isso.

"Ter um mundo inteiro dentro da minha cabeça!" - Repetia ele, sussurrando.

Alguns minutos se passaram e o senhor, sem perceber nenhuma reação do menino, não pode mais se segurar. Como ele gostaria de saber o que o levou a passar tanto tempo observando seu trabalho e, principalmente, o que ele havia achado do quadro. Resolveu se virar e encarar o menino. Mas, ao primeiro movimento de cabeça, Nicolas se assustou e saiu correndo direto para casa, enquanto o senhor sorria tranquilo. Virou-se então, desligou o abajur e entrou para sua casa, nos fundos, comeu, tomou um banho quente e foi dormir.

No fundo sabia que ele iria aparecer novamente.