sexta-feira, 22 de junho de 2012

Do alto

Como é fantástico olhar tudo do alto. Não importa quais sejam os meios. Seja aquela visão distante de um avião, na qual podemos ver tudo junto como uma massa disforme, sem nenhum foco. Ou mesmo a visão da visão do alto da torre mais alta, de onde, com um pouco de esforço, conseguem se distinguir algumas pessoas e, mais importante, com um pouco de imaginação conseguem criar os mais mirabolantes cenários e roteiros dignos de filmes.

Olhar de uma janela do décimo quinto andar então. Que maravilha olhar as 'pessoinhas' andando de um lado para o outro como pequenas formigas, seguindo rotas aparentemente aleatórias. Apenas aparentemente.
Mas nada se compara à visão do terceiro andar.  É. Imagino que essa seja a altura ideal, talvez, no máximo, do quarto andar. De lá já é possível saber quem é quem.

Deve ser esta a linha de raciocínio que  passa pela cabeça de Dona Alba. Passa horas sentada ali, em sua poltrona na janela do seu pequeno apartamento. Localizado no terceiro andar de um velho prédio de tijolos aparentes, daqueles bem estreitos, com janelas generosas. É uma ótima poltrona, a julgar pelo tempo em que Dona Alba passa sentada nela todos os dias.

De lá que ela passa o dia observando tudo e todos que sua vista alcança. Ela saberia contar as histórias de todos que moram nos arredores. A que horas fulano passa voltando às pressas do trabalho para encontrar sua esposa, que está grávida (sim, é possível ver a janela de seu quarto, onde ela permanece deitada, devido ao avançado estado da gravidez). Logo ele estará voltando para casa, pelo mesmo caminho. Mas então o esperará uma criança linda, a julgar pela aparência dos pais.

De lá ela percebe a hora onde os cafés e restaurantes do térreo e os jovem brotam das esquinas para comer uma deliciosa pizza com vinho, uma deliciosa pasta, ou mesmo saborear um café depois de um dia todo trabalhando e enfrentando o típico transito caótico. Todos os dias aparece algum tipo interessante. Como aquele casal jovem que, agora mesmo, anda devagar rua acima, procurando um lugar para comer. São novos por lá, e já são alvo do olhar bisbilhoteiro de Dona Alba. Como muitos antes, eles passam falando algum idioma que ela não conhece. Devem ser de alguma outra região, o que é frequente em uma Cidade tão grande.

Ela não se cansa olhar. Quando seu corpo não aguenta mais, ela adormece na própria cadeira e, pela manhã, toma um café fraco insosso preparado pela sua cuidadora e volta a olhar pela janela esperando as histórias acontecerem.

No fundo, esperando que, com um pouco de sorte, sua história possa acontecer.

Em vão.

Todos os dias acordará sentada na mesma poltrona, tomará o mesmo café sem gosto, e ficará ali, sentada. Esperando alguém entrar em seu apartamento para tirá-la deste estado inerte de espera por um milagre, uma oração e pela misericórdia de alma, que não fez nada de ruim. 

Que não fez nada.