terça-feira, 26 de junho de 2012

Dodói

O Rei não se sentia bem. Havia acabado de almoçar numa vila que era tão pequena que tinha apenas um restaurante. Estava a caminho da cidade grande mais próxima quando sua barriga começou a doer. A princípio, não incomodava, apenas fazia barulhos estranhos. Mas depois a dor se tornou tão grande que ele mais se arrastava do que andava e começou a ficar tonto. Ele apagou por um instante e acordou no segundo seguinte caído na estrada. Viu um vulto cinzento ao longe... E então perdeu a consciência novamente.

Quando acordou novamente, já era noite. Estava num quarto frio com paredes de pedra, coberto por muitos cobertores de lã e peles. Estava suado, como se tivesse tido febre. Ao lado da cama encontrou uma tigela de sopa espessa e quentinha, e um jarro de água com um copo ao lado. Ignorou a sopa e o copo, bebendo direto da jarra.

Ficou algum tempo observando o quarto. Não importava o quanto forçasse a memória, não se lembrava de algum dia ter estado ali.

Bem quando sua mente começou a bolar hipóteses mirabolantes para o que poderia estar acontecendo, uma figura encapuzada fez ranger a pesada porta de madeira e entrou no quarto. Ela andou lentamente até a beirada da cama e levantou uma mão pálida e fina meio coberta pelo manto negro que usava.

- Você é a Morte? Você veio me levar?! - o Rei perguntou, tremendo e puxando a ponta dos cobertores para tentar cobrir pelo menos uma parte do rosto. - Por favor, não me leve! Ainda sou muito jovem!

- Não, seu tolo! Sou a Senhora desta Torre, e é graças a mim que você não está morto.

O tom jovem e feminino da voz afastou um pouco os temores do Rei. Mesmo soando reconfortante, a moça não abaixou o capuz, o que ainda lhe causava certo desconforto. A Senhora então sentou-se na ponta da cama, perto de seus pés, e com um tom bem mais brando perguntou:

- Você está se sentindo melhor?

- Sim, obrigado.

- Tome a sopa, vai lhe fazer bem.

O Rei pegou a tigela de sopa, mas sua cabeça ainda estava vazia com perguntas. Não ia conseguir encher seu estômago enquanto não enchesse o cérebro.

- Você sabe como vim parar aqui?

- Um amigo teu te trouxe. Disse que você desmaiou na estrada.

- Mas eu viajava sozinho, e duvido que tenha me sobrado um amigo nesse mundo... - "Depois que perdi minha coroa", o Rei guardou o final da frase apenas para si.

- Bom, ele disse que era seu amigo. Mas era um sujeitinho curioso. Não me disse seu nome, apenas te trouxe aqui e foi embora. E ele vestia uma roupas engraçadas, preto e brancas e cheias de losangos, e tinha um chapéu cheio de pontas, com guizos nelas. Certeza que não conhece ninguém assim?

"Esse parece ser o Bobo da Corte", o Rei pensou. "Mas não o vejo desde que perdi minha coroa. Será que... Não, não deve ser ele. Ele nunca me ajudaria, pois nunca nos entendemos quando ele trabalhava no castelo. Deve ser algum outro Bobo."

- Não. Ninguém que se lembre de mim, de qualquer forma.