sexta-feira, 15 de junho de 2012

Duas Goiabas do Mesmo Pé

Era uma vez... a sétima vez de quinze vezes no quarto mês do ano que o Menino tentava pegar a goiaba mais alta do pé. Todos os outros garotos da vizinhança eram mais altos e fortes que ele, por isso sempre perdia na corrida depois da escola até o pé de goiaba que ficava num terreno baldio a duas quadras de distância. Era empurrado para a rua ou ia parar no meio dos arbustos que ladeavam a calçada e, quando chegava lá, não sobrava nem meia dúzia de goiabas.

E como se a sua humilhação masculina não fosse suficiente, as garotas passavam no seu momento mais inglório, enquanto ele se pendurava nos galhos mais baixos para subir na árvore. Na sétima vez de quinze vezes no quarto mês do ano que o Menino tentou subir na árvore, seus calções se afrouxaram e as meninas passaram dando risada da sua cueca de passarinhos amarelos em fundo azul, fazendo-o despencar de bunda no chão. Até as goiabas pareciam caçoar dele, deliciosamente inalcançáveis e suculentas que se mantinham no alto da árvore, longe dele. Nunca dele. Sempre humilhado.

Quando o pai chegava em casa e perguntava se ele havia conseguido pegar as goiabas daquela vez, o menino sempre inventava uma desculpa qualquer. Um passarinho caiu do ninho e ele parou para ajudar, enquanto os outros meninos comiam as goiabas. Um cachorro louco o perseguiu até em casa, sem dar chance de ele parar pra pegar goiabas. Daquela vez até conseguiu subir n árvore, mas havia uma jibóia enorme nos galhos e ele teve que descer antes de pegar as frutas.

Na escola, porém, essas desculpas não colavam. Até porque, havia testemunhas do seu infortúnio. As outras crianças chegavam até a caçoar mais dele quando contava suas histórias.

Num desses finais de aula em que os alunos aproveitavam o último intervalo para chamá-lo de mentiroso e fracote, a única pessoa que o apoiava (ou que pelo menos não caçoava dele nem pelas suas costas), levantou-se assim que a professora entrou e lhe entregou um bilhete. O Menino ouviu de longe a professora dizer “OK, está dispensada”, e lá se foi a Menina para fora da sala, acenando para ele com um sorriso.

O resto da aula foi um inferno. Ele teria que pegar aquelas goiabas, de qualquer jeito!

Ao soar o sinal, ele foi o primeiro a sair correndo da sala. Conseguiu ser o primeiro a sair da escola! E foi o primeiro também a levar um tombo nas escadas. Todos os outros garotos passaram por ele aos tropeções, empurrando uns aos outros e caçoando dele.

Quando chegou na goiabeira, qual não foi sua surpresa ao ver que estavam todos parados ao redor da árvore, sem o tradicional empurra-empurra e puxa-puxa. Começou a abrir caminho para ver o que estava acontecendo, não sem alguma dificuldade. Foi então que ouviu uma voz bem conhecida sua:

- Aí está você! Aqui, toma! – era a voz da Menina que, sem cerimônia, colocou um enorme cesto de vime nas suas mãos. O cesto estava cheio de goiabas, e o pé completamente vazio. – Eu prendi todos os cachorros soltos da vizinhança em suas casinhas, devolvi os passarinhos para seus ninhos e espantei todas as cobras para você. Agora você pode comer quantas goiabas quiser!

O Menino sorriu de orelha a orelha. Os outros garotos estavam esperando serem zombados por terem sido feito de bobos por uma menina, mas em vez disso, o Menino começou a distribuir as goiabas entre eles, duas para cada um! Sob o olhar surpreso da Menina, ele disse:

- Nunca vou conseguir comer tudo sozinho, e assim todos podem comer um pouco.

Alguns dos garotos agradeciam espantados, outros não falavam nada e só acenavam. Quando todos foram embora, o Menino olhou para o cesto: havia sobrado apenas uma goiaba. Ele olhou para a sua melhor amiga envergonhado e ofereceu a última fruta a ela, final, não teria nem conseguido tocar nas goiabas se não fosse pela Menina. Mas ela empurrou delicadamente o fruto de volta para ele, dizendo:

- Vamos dividir.