sexta-feira, 1 de junho de 2012

Folha em branco

Nicholas segue sentado na sua carteira. Mas que tédio. Encara o papel sulfite em branco que teima em ficar lá, olhando fulminantemente para ele. Aquele olhar de desafio. A sala de aula estava cheia mas, mesmo assim, silenciosa. Todos seus 'vizinhos' debruçados nas suas próprias folhas, com seus lápis em mãos. Não conhecia nenhum deles, era novo naquela sala.

A professora estava ali sentada olhando para um ponto fixo no canto da sala. Nem dava bola nenhuma para o único aluno que a encarava. Não desviava o olhar por nada, e não havia nenhum barulho para distraí-la. Nicholas a encarava. A encarava do mesmo jeito que ela olhava aquele ponto fixo. E gostou da ideia!

Do lado de fora da sala o bedel estava lá sentado na sua mesa, no meio do corredor, de frente para a escadaria, observando os alunos chegando e saindo de seu andar, indo ao banheiro, mas nem se importava. Sua cabeça estava lá em sua casa, onde sua mulher estava dormindo. Não podia ela fazer muito esforço pois já estava de muitos meses de barriga. Mal podia esperar pra chegar em casa para ver como tudo estava.

Descendo as escadas, saindo pela porta e andando algumas quadras pra longe do prédio cinzento da escola, estava a Nonna Maria. Ela andava devagar, já por sua avançada idade e fazia esforço para lembrar que tinha que comprar tomates, cenoura e uns ramos de manjericão , pois o Nonno a esperava em casa com um guisado delicioso na panela esperando os ingredientes finais.

Nonna Maria acabara de passar à frente do velho atelier de pintura. Aquele com a vitrine de madeira esculpida escura, onde o Velho Arthur pintava um quadro novo. Estava sentado como sempre com o pincel em mãos. Nicholas mal esperava a hora de tocar o sinal, para sair correndo e ficar lá, olhando através do vidro e aprendendo com o senhor pintor.

Logo ali ao lado atravessando a avenida, descia pelo elevador do grande arranha-céu de vidro espelhado um homem todo aprumado, com seu terno preto, sapatos engraxados. Ele falava com um estranho ao telefone em uma língua em que Nicholas não conhecia. Era bem esquisito.

Logo depois o homem saía pelas portas automáticas do edifício e cruzava com um homem igualmente aprumado. Vestia um terno também preto, o sapato também engraxado, com uma camisa branca de gola alta, sem gravata. E só. Parecia que não se passava nada pela cabeça desse homem. O olhar estava bem indefinido por trás dos óculos e dos cabelos um pouco mais compridos  na frente do rosto. Muito estranho. Na verdade não importava.

Uma moça saía da livrara, com o rosto afundado em Shakespeare. O guarda estava sentado no banco da praça comendo sua marmita. O operário apertava mais um dos milhares de parafusos dos dutos da indústria de óleo de cozinha, lá nos confins da Cidade. O caminhoneiro está preso no transito, quase dormindo com a cabeça apoiada no volante.

Indo mais longe e mais longe. Mais pessoas apareciam. E a Cidade ia avançando, avançando, sem fim. Não acabavam os prédios, os telhados, e os pedestres falando, dirigindo, trabalhando. Cada um com seus pensamentos e preocupações, com saudades de casa, da esposa, do namorado. Eram homens e mulheres espalhados por toda a grande massa de prédios.

Em um momento tudo começa a voar pela cabeça do pequeno Nicholas. Os prédios passam mais rápido. As pessoas falam mais rápido. As vozes vão se misturando As ruas vão passando tortuosas, embaraçando, embaçando. Tudo ficou uma massa cinza, passando rápido...

Indo...

Indo...

E de repente tudo para. E não havia mais cidade. Havia só um gramado verde. Com uma árvore grande, frondosa. Sua sombra parecia ser deliciosa, ante ao sol forte que fazia. Lá estava um homem sentado, tranquilo. Parecia que a sua mente estava completamente relaxada. Suas preocupações tinham ficado em qualquer outro lugar. Sua camisa branca estava com alguns botões abertos deixando a brisa quente aquecer sua alma.

Como ele podia saber de tudo aquilo? Nunca tinha saído da cidade. Quem se importa? Ele não estava nem aí, só aproveitava cada segundo, olhava em volta. Queria olhar tudo e explorar toda aquela vastidão.

Mas ao se virar, tudo sumiu. E só havia a professora lá, sentada. Continuava olhando aquele canto. O que será que ela estava vendo?

Quando estava começando a imaginar o que ela pensava, toca o sino alto! E Nicholas saiu correndo, passou pela professora, pelo bedel, esbarrando em todo mundo. Cruzou com a Nonna na avenida e o cara de terno. Quando parou estava de frente da vitrine de madeira esculpida, olhando o velho pintor terminar sua obra. E ficaria lá até o fim da tarde.

O papel sulfite continuava lá em cima da mesa, em branco. Mas não teimava mais tanto por ser desenhado.