terça-feira, 5 de junho de 2012

Sonhando para Dentro

O Bobo da Corte dormia tranquilamente debaixo de um enorme e velho chorão à beira de um lago. Estava num parque muito grande e resolveu descansar enquanto o sol estava alto. O calor o fez cochilar, e ele sonhou com um dia vivido muito, muito tempo atrás. Sonhou com o castelo em que costumava trabalhar, a serviço do Rei. Realizou no mundo dos sonhos uma vez mais a sua última apresentação no Grande Salão, antes que este se tornasse completamente vazio, frio e escuro. Até mesmo em seu sono o silêncio era esmagador.

A Senhora acordou, assustada. Nunca havia sonhado com um silêncio tão devastador antes. O curioso é que ela não era ela mesma, mas sim um homem vestido numa estranha roupa preto e branca. Deixando aquilo de lado, levantou-se e foi lavar o rosto. Porém, alguma das travessas criaturinhas que viviam dentro daquelas paredes de pedra havia trocado todos os espelhos do seu quarto de lugar. Em vez de seu rosto, o que viu foi uma rosa de muitas pétalas, branca e belíssima, porém de cujos espinhos escorria algo viscoso e vermelho. Ela deu uma palavra de comando, e a imagem no espelho mudou. Esperava ver nele a imagem do Cavaleiro da Armadura de Pedra com suas asas. Para a sua surpresa, no lugar dos apêndices angelicais, havia apenas a lembrança deles, uma silhueta vazia atrás do Cavaleiro.

A Menina acordou de repente, com a sensação de estar caindo. Agarrou-se à primeira coisa que alcançou, e seus dedinhos se enfiaram por entre as folhas de grama altas, arrancando-lhes pedaços. Quando se lembrou de onde estava, seus dedos se afrouxaram e ela sentou com as pernas cruzadas. Ao seu lado, o Menino dormia de boca aberta. Estavam procurando formas nas nuvens no quintal da casa dele quando caíram num sono pesado.

A Moça não queria acordar. O despertador já havia tocado 5 vezes, mas ela estava tendo um sonho tão gostoso e nostálgico que se enrolou nas cobertas e ignorou o aparelho, como se assim ele fosse deixá-la em paz. No sexto toque, uma mão grande e gentil tocou o seu ombro.

- Com o que estava sonhando? - uma voz de homem alcançou seus ouvidos. A Moça sorriu ao sentir o cheiro de café que o acompanhava. Abriu os olhos lentamente e se sentou na cama, aceitando a xícara que ele havia lhe trazido.

- Com a gente, quando éramos crianças. Estávamos olhando as nuvens.

- Espero que não tenha sido com o dia da chuva.

- Não, foi com o dia em que o Viking te acordou pulando na sua barriga.

- Nossa, que saudades daquele vira-latas! Aposto que você riu muito no sonho, você adora uma reprise.

- Você me acordou antes da parte boa.