terça-feira, 3 de julho de 2012

Benjamin

Benjamin era um menino meio estranho para a época. Teoricamente não era nada de mais, um menino com a pele bem escura e mirrado, trabalhava numa fazenda, na roça, levando sacas e sacas para cima e para baixo pela fazenda.

Dia após dia, a rotina - que era de seus pais, antes de partirem - se repetia, dolorosa, mesmo emoldurada pelo belo cenário rural - pelo menos ao longe era belo, quando não se viam os trabalhadores se acabando no meio da plantação - e, ao fundo, o delta se espalhando, criando mangues e restingas até chegar no mar quente.

Ah, o delta. Era tomado por uma divindade por Benjamin. Era sempre presente no deu dia-a-dia, mas sabia que nunca iria alcançá-lo. A cidade lá ao fundo era como se fosse o paraíso. Daria a vida para poder chegar lá. Talvez só assim chegaria lá.

Durante à noite Benjamim arrumava as suas trouxas e, após um jantar magro na casa grande da fazenda, saiu de volta à pequena cidade - está mais para uma vila - onde os trabalhadores das fazendas vizinhas viviam, em pequenas meias-águas que, mesmo simples, tinham seu aconchego.

Mas nesse dia fatídico, pouco antes de o verão chegar - a pior estação para quem passa o dia na fazenda embaixo do sol forte - Benjamin não foi para sua  meia-água. Seguiu reto pela rua principal e, algumas quadras depois deu de frente com um muro. Era lá.

Ele pegou uma caixa de madeira numa pilha de lixo e colocou rente ao muro e, usando-a como um grande degrau, trepou na parede até se sentar no topo do muro, olhando tudo o que havia lá. Era a estação rodoviária. Com seus grandes ônibus de metal. "Tecnologia demais pra mim", pensava ele. Mas tudo o que ele queria era ter dinheiro para uma passagem. Só uma!

Ele assumiu para si essa rotina. Dia após dia ele saia da fazenda com suas trouxas e andava até a rodoviária, ficava lá no muro e ia embora as 9 e 15 da noite, logo após a saída do ultimo ônibus que ia em direção ao delta.

Muitos dias depois da primeira visita, B. , como era chamado pelo capataz, descia de sua caixa - já era sua nesse ponto, ninguém mais mexera nela por um bom tempo - um pouco mais cedo. Não conseguia mais olhar o ônibus lá parado. Benjamin acreditava que o motorista ficava lá, todos os dias torcendo para que ele conseguisse o dinheiro pra passagem, e chegado o horário da partida, ia com a esperança que, no dia seguinte iria receber seu passageiro. Ao chegar ao meio-fio para foi surpreendido por um voz familiar.

O seu dono estava sentado num banco, e o observara desde que ele chegava. Benjamin nem suspeitava de sua presença, mas, depois do susto da surpresa, logo sorriu a ver um rosto amigo.  Tinha pele bem escura, um olhar sereno e um sorriso cheio de significados.

O velho trabalhava lá no paiol da plantação onde B. passava seu dias. Era um senhor já com uma certa idade. Morava em uma pequena casa, lá na avenida principal, mas era pouco o que Benjamin sabia sobre o tipo. Ele tinha uma grande caixa ao lado de si e no colo um grande instrumento que B. sempre via o velho tocar sentado numa velha cadeira de balanço numa varanda improvisada na frente de sua meia-água. Era a toada da vida na pequena cidade.

 - É, garoto. Não é hoje que você vai embora daqui. Mas pelo menos você não precisa ir sozinho pra casa. - Disse o velho, apontando pra  grande caixa ao seu lado.

Benjamin ficou surpreso com a surpresa. Não esperava nada assim vindo do velho guardador do paiol. Para ele, o velho sempre estivera lá. Contavam histórias sobre a pequena cidade e ele sempre estivera presente junto com seus pais e outros que começaram a criar raízes naquela terra fértil próxima ao delta.

 - Considere que é um presente pelos velhos tempos. Um garoto como você não pode crescer assim sozinho. Mas essa vai ser sua companheira. Por anos uma dessas foi minha única e melhor companheira, quando vim para cá e não tinha mais ninguém. Talvez seja sua companheira quando finalmente conseguir comprar sua passagem para finalmente ir embora daqui, mesmo que por uns dias.

Com isso, Benjamim pegou a caixa com um entusiasmo que só a mera possibilidade de poder um dia pegar aquele ônibus poderia trazer para ele. Ele abriu sem nenhuma cerimônia e tirou de dentro um violão.

Era um instrumento bem rústico, mas com aparência forte. De madeira dura e acabamento tosco. Mesmo assim era lindo. Os veios eram aparentes, os trastes eram brilhantes e o braço de forma suave. Estendidas sobre o último estavam as cordas novinhas brilhando, esperando para serem tocadas.

Não esperariam muito, pois logo depois do vislumbre inicial, Benjamin colocou o instrumento no colo e o tocou tão toscamente quanto o possível. As notas tortas que saiam sem qualquer tom, melodia ou harmonia definidas eram a música mais perfeita já composta aos seus ouvidos.  E a cada acorde horrível que ecoava da caixa do violão, maior era o sorriso do velho e todos aqueles significados possíveis para tal se convergiam para uma pura e simples nostalgia.

Naquela noite não houve nenhuma música, houve 'apenas' uma algazarra de sons completamente aleatórios do garoto, misturados - estragando, poderiam alguns insensíveis dizerem - às notas suaves e carregadas de emoção tocadas pelo velho com maestria. Era o primeiro de muitos blues de B. ao longo dos anos.
Essa miscelânea foi se estendo pelo tempo e pela cidade, à medida que os dois caminhavam pela avenida, acompanhados pelos olhares curiosos vindos através das janelas iluminadas. Ninguém se importava, na verdade, com o barulho e, mesmo que se importassem, quem não estava nem aí era o jovem Benjamin, que aquela noite foi dormir tranquilo.

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Baseado em fatos reais, fatos que talvez sejam reais, e algumas coisas que não faço ideia de onde vieram.