sexta-feira, 27 de julho de 2012

Desejos

Era uma noite fresca, sem nuvens e sem lua. As estrelas brilhavam forte no céu como se competissem para ver qual era a mais brilhante. Ali, na beira do lago, longe das luzes de qualquer cidade, era possível ver uma quantidade ofuscante de estrelas, de marejar os olhos.

O Viajante é quem as observava, de pé sobre uma das pedras lisas na beira do lago. Os sabe-tudo da última cidade que visitara diziam que naquela noite haveriam muitas estrelas cadentes. E estrelas cadentes eram perfeitas para se fazer uma coisa: pedidos.

Mas não contaria o desejo mais íntimo de seu coração a qualquer estrela. Tinha que ser uma estrela só sua, especial, irreverente, inesperada. Afinal, cada estrela cadente só consegue responder a uns poucos pedidos antes de cair no horizonte, e ele queria ter a certeza de que a sua estrela cadente fosse aquela vista pelo menor número de par de olhos possível.

Sendo assim, esperou. Passou quase a noite toda em claro, apreciando o que quase parecia ser uma chuva de meteoritos queimando na atmosfera do planeta. A maioria mal piscava antes de se consumir em chamas, mas algum durava o suficiente para fazer um pequeno traço brilhante no céu. Enquanto era plateia daquele espetáculo, o Viajante aguardava a sua deixa para entrar no palco de mais um teatro do universo.

Há poucas horas da alvorada, enfim ele viu o que tanto esperava: um rasgo brilhantes cortou o céu noturno, mais forte e mais longo que qualquer outra estrela cadente que caíra durante a noite inteira. E ele fez seu pedido:

“Quero que o mundo seja meu. Não quero conquista-lo com punhos e armas, mas sim com a mente e o coração. Quero conhecer cada pedra iluminada pelo sol e cada lata virada na noite. Quero conhecer toda a gente de todos os países. Quero entender suas culturas, seus costumes, provar de sua comida e ouvir suas melodias. Quero ver, quero ouvir, quero sentir. Quero eternizar o belo.”

Quando a estrela cadente se deixou consumir pelo negror da noite, o Viajante olhou para baixo, para o seu reflexo no lago, e teve uma bela surpresa. Viu ao lado do seu reflexo a imagem de uma velha amiga que não via há muitos anos. Era uma moça esguia com longos cabelos azuis. Seus olhos estavam fechados, mas quando abertos revelavam um negror profundo e luminoso, refletindo a sabedoria de eras passadas. Era Shuei, a menina-água que encontrara numa de suas primeiras viagens.

- O que você desejou? – ele perguntou, e a menina abriu seus olhos sorrindo, feliz em vê-lo tanto quanto ele a ela.

- Que você viva o seu sonho.

Enquanto isso, lá em cima, onde os meteoritos entravam na atmosfera terrestre, uma outra moça tão velha quanto o tempo observava os dois amigos. Ela ia pulando de rocha em rocha, se equilibrando nas pontas dos pés e dançando até sobrar pouco mais que alguns fragmentos cortando o céu em chamas. A Cigana Vermelha sorriu ao ver aqueles dois desejos sendo feitos, e lá de cima ela pôde ouvir a resposta do universo.

- Esse jovem viverá o tempo de muitas vidas para ter seu desejo atendido. Isso pode parecer uma dádiva, porém não tardará a perceber que é, na verdade, o pagamento pelo seu desejo. Mas acho que ele não vai se importar. O universo favorece aqueles de coração puro e corajoso, os únicos fortes o suficiente para moldar o destino.