terça-feira, 17 de julho de 2012

Revolta

Havia um grande tumulto na praça central. Pessoas se reuniam com placas e faixas enormes, com expressões de revolta e indignação. Em pouco tempo, já em número bastante grande, todos marcharam até a prefeitura. Os portões estavam fechados para elas. Os guardas se posicionaram imóveis, porém apreensivos do outro lado das altas grades de ferro. O estardalhaço era imenso, mas ninguém avançou para derrubar o portão. Era uma revolta pacífica.

Os homens e mulheres da imprensa acompanhavam tudo há uma distância segura, com seus blocos já pela metade com as entrevistas dos revoltosos. Um ou outro mais atrevido se aventurava perto das saídas da prefeitura com a esperança de falar com o prefeito, mas os seguranças os afugentavam.

Um passante completamente desnorteado viu aquela multidão se deslocando da praça para a prefeitura e resolveu acompanhar a massa para ver o que estava acontecendo. Apesar das suas estranhas roupas coloridíssimas e capa de veludo - já bem desgastada das suas viagens - ninguém se importou com a sua presença, pois estavam todos focados em seu objetivo.

Quando os gritos de protesto aumentaram na frente do prédio histórico mal-utilizado, o Rei resolveu perguntar a um dos jornalistas o que estava acontecendo. O homem usava terno marrom, um chapéu elegante e se apoiava com o pé numa mureta enquanto fazia rápidas e constantes anotações. Ele parecia saber das coisas.

- Com licença, senhor. O que se passa aqui?

- Você não sabe? De que planeta você é? - o jornalista respondeu displicentemente, guardando com cuidado o seu bloco de notas no bolso interno do paletó.

- Ora, deste mesmo! Mas acabei de chegar na cidade e vi este tumulto. Sobre o que se trata?

- O povo descobriu que o prefeito estava roubando dos cofres públicos, e o quanto estava roubando. É normal os políticos roubarem por aqui, mas acho que esse conseguiu passar do limite de tolerância das pessoas.

- Quer dizer que os cofres do prefeito não são dele, mas sim da cidade?

- Há! Você é uma figura, sabia? Ou é um cara muito engraçado ou deve ser da mesma laia desse prefeito. As pessoas estão exigindo uma nova eleição, pois também não confiam no vice. O mais provável é que coloquem no lugar dele o candidato que ficou em segundo lugar nas últimas eleições.

- As pessoas podem tirar ele do poder? - o Rei perguntou engolindo em seco, tendo péssimas lembranças de um passado não muito distante.

- Podem e devem! Só espero que o próximo prefeito não seja um safado como esse. O povo merece coisa melhor do que essa escória que tem controlado a cidade nas últimas décadas, sem dar a mínima para a população que depositou sua confiança neles. Está na hora de vermos um pouco de caráter pra variar.

Naquele momento o prefeito apareceu um instante na janela para ver o tamanho da multidão que, assustadoramente, parecia crescer a cada minuto. Aquilo gerou um tumulto ainda maior, o que alvoroçou o faro de todos os jornalistas. O Rei aproveitou a distração do homem com quem conversara para se afastar dali.

E seguiu andando, para longe, para trás no espaço e no tempo, para os últimos momentos em que sentiu a sua coroa de ouro e pedrarias sobre a cabeça. E então o momento seguinte, quando não era mais Rei por não possuí-la.

Pela primeira vez desde aquele momento, o Rei se fez uma pergunta que nunca havia feito antes:

"Por quê?"