sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Balanço

Estava sentado no meio-fio de uma rua pouco movimentada, no final de um cansativo dia. Ao mesmo tempo, dançava.

Dançava num salão cheio, entre pés incansáveis e braços brincalhões e sensuais. A música adentrava seus ouvidos e era impossível ficar parado. Do ouvido chegava logo à boca, que cantava o que lembrava e o que não sabia. Dali fazia seu caminho rapidamente aos braços e pernas, que voltaram a fazer força para puxar seu carrinho, agora carregado de papelões, latinhas de alumínio, fios de cobre e o que mais poderia ser vendido para reciclagem.

Não faltava muito agora, estava quase chegando. Com sorte conseguiria entregar o material e chegar em casa a tempo de ouvir o final de seu programa de rádio favorito, que tocava música. E ela já fazia seus membros se mexerem todos ao seu ritmo, soltos e livres. Chegou às pontas dos dedos da mão e ao pé, que completavam os detalhes dos movimentos. Seus olhos se deixavam fechar por alguns instantes, para sentir o som e os movimentos do corpo, a cabeça pendendo para os lados relaxando o pescoço. Que doía.

Seus músculos estavam todos contraídos, era a última subida que precisava enfrentar em seu trajeto. A pista se abria e ele era o destaque da festa, dançando a todos verem. Até arriscou um sorriso, que ninguém na rua viu. Entregou o material, pesou, recebeu o troco do dia. Saiu desengonçado, com o carrinho vazio.

Ao chegar em casa, mal forrou o estômago, caiu morto de cansado. O rádio tocava a última música do programa, despercebida. Nunca dava tempo de dançar.