sábado, 4 de agosto de 2012

Lá fora!

17:15, O céu cinza chumbo já estava adquirindo os tons alaranjandos que prenunciam o fim da tarde. Olhava para todos os lados e a cidade não terminava no horizonte. A impressão é a de que os prédios iam seguindo a curvatura da terra e desaparecendo. Parei diante de uma cena que não consegui parar de olhar, ver os detalhes e, por algum motivo, chamou minha atenção  um pequeno carro prata, no meio de tantos carros prata, perdido no meio do congestionamento infinito. Parecia que ele sempre esteve lá, que todos estiveram lá, como uma fotografia tirada há anos atrás, já envelhecida. A programação da tarde seguia como todos os dias...

- 'Vamos agora com as informações do nosso helicóptero que continua sobrevoando as ruas para trazer até vocês, ouvintes da 104.1FM, as informações do trânsito nas principais avenidas da cid...'

- Chega!

Ele desliga o rádio e abaixa os vidros do carro para tentar forçar uma ventilação cruzada mas tudo em vão. O ar estava parado demais. Tão parado quanto o transito. Por isso a impaciência com o pobre do repórter de trânsito, que não tem nada a ver com a história. Já fazia meia hora e ele permanecia preso no meio do viaduto mais alto da cidade e parece que mesmo com todo este tempo passado alguns 'indivíduos' não entenderam que buzinar não vai adiantar de nada numa hora dessas. De onde ele está é possível ver tudo: Os outros viadutos se entrelaçando abaixo, a cidade que teima em não acabar antes do limite do olhar, aquela névoa que vai engolindo os topos dos edifícios, o Sol dando sinais de cansaço. Daqui uma meia hora, talvez um pouco mais, ele vai desaparecer por trás do rio  que corta a cidade de leste a oeste. E logo será noite...

Assim o tempo passa. Sua cabeça está pesada, presa em cada instante, absorvendo cada detalhe, cada som, cada visual, as cores alaranjadas do céu pesado da cidade que não termina nunca. Cada minuto é eterno e ele não aguenta mais ver o carro prata, velho, com algumas partes de sua lataria oxidada, parado à sua frente, assim como todos os carros que ele conseguia ver à sua volta.Os ruídos da cidade são demais para sua cabeça e por um momento ele tenta, com toda a sua força, filtrar tudo que entra em sua mente. Ouvir um som por vez.

Depois de alguns momentos de silencio uma musica começa a aparecer. Verso por verso:

"Out there
There's a world outside of Yonkers
Way out there beyond this hick town, Barnaby
There's a slick town, Barnaby
Out there
Full of shine and full of sparkle
Close your eyes and see it glisten, Barnaby
Listen, Barnaby..."


A música vinha de um dos carros ao lado.  Um senhor a ouvia atentamene no seu toca-fitas enquanto esboçava um pequeno sorriso. Ele olhava fixo para o rosto do senhor, que estava em na faixa ao lado da sua, um pouco mais atrás em um carro verde musgo. Para aquele senhor o tempo simplesmente não existia. No sorriso do velho viu seus últimos anos passarem no seus anos. Não havia em lugar algum aquela tranquilidade, aquela alegria que ele via no sorriso do senhor...

A esse ponto o ceu estava vermelho, quase carmin... O Sol queimava enquanto aquele transito eterno se mantia parado e a música se repetia, se repetia de novo e de novo.  E assim surgiu a sua idéia.  Ele sairia de seu carro, deixaria tudo para trás. Sairia cantando aquela música que preenchia sua cabeça inteiramente. Não haveria vento em seu rosto, ou mesmo o empurrando adiante, mas de alguma maneira o ar à sua volta se renovava. O senhor do carro verde musgo, gostando do que via através do seu para-brisa abriria a porta e o seguiria cantando. Outra pessoas fariam o mesmo, sem entender muito, apenas cantando aquela canção repetidas vezes.

O Sol se poria e seus ultimos raios já baixos iluminariam este mar de carros vazios. Não havia nenhum simples som, nenhuma buzina e a cantoria já não podia ser ouvida daquele lugar. De algum jeito, aquela cena seria hipnótica, seria fascinante. Olhar tudo aquilo daqui seria inexplicável.

Mas creio que seja só fruto da minha imaginação. Ele não ouviu a música que o senhor tocava em seu toca-fitas. Ninguém a ouviu. Nada muda e o Sol já está dando seus últimos respiros sobre a cidade, mas ainda tenho esperança. Amanhã, às 17:15 estarei aqui de volta. O Sol vai estar no mesmo lugar. A atmosfera será a mesma. Tem que ser. Talvez amanhã, todos eles já serão outras pessoas, mas eles todos ainda estarão lá. E estarei assistindo.

Talvez amanhã... Quem sabe?

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Nota do Autor:

Para quem não lembra da música que eu citei acima:
Chama-se "Put On Your Sunday Clothes" e é cantada por Michael Crawford, como trilha sonora do musical Hello, Dolly!. Em 2008, a trilha serviu de abertura da animação Wall-e.  Segue a música no vídeo original de 1969, estrelando também Barbara Streisand:
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=JVA3jgpgIY8]