sábado, 25 de agosto de 2012

Quadra 01

O garoto seguia pelo quarteirão andando lentamente evitando, sempre que possível, as pedras pretas na calçada pois elas, quando molhadas, se tornavam um verdadeiro sabão. Não chovia há dias, mas isso já havia se tornado um pequeno ritual lúdico, que tornava o caminhar um pouco mais interessante para a criança.

Era um bom quarteirão aquele. Tinha tudo que um garoto da sua idade precisava para ser feliz. A escola era logo alí, atravessando a grande avenida (isso era bom, que dava um certo distanciamento). Havia uma rua tranquila, paralela à avenida, no outro lado da quadra. Lá, um terreno baldio se tornou espaço para brincadeiras. Os amigos estavam todos lá, morando ao lado, e compartilhavam do mesmo apego inabalável por aquele lugar. Nenhum deles jamais tinham saído de lá.

Tudo estava bem. Normal. Estável. Esse era uma palavra que ele não conhecia muito bem mas seu significado era muito forte. Era muito interessante quando via pessoas mais velhas de terno, com malas, esperando cada uma seu ônibus. Eles iriam para lugares que o garoto mal imaginava pois tudo que era possível ver fora de seu pequeno mundo era o que aparecia na televisão.

Mas a partir de um certo momento isso começou a incomodá-lo.

E a semente já estava plantada.


Certo tempo depois, lá estava ele, sob os olhares abismados do grupo de amigos, dando o primeiro passo para dentro do ônibus munido apenas de sua mochila.

Ninguém chegou a ver o nome da linha.


Ninguém mais teria visto o garoto por um bom tempo.