terça-feira, 4 de setembro de 2012

Camponeses e Piratas

Olhava seu reflexo no lago. Era alto, magrelo e bastante desengonçado. A visão não lhe agradava e não se prendeu a ela por muito tempo. Um pouco mais a frente, podia ver a imagem de um navio. O casco imponente feito de madeira escura cobria quase toda a superfície. O navio era grande, muito grande. Seu reflexo quase não cabia no pequeno lago. Só conseguiu ter noção do real tamanho quando virou a cabeça para o céu e o viu, voando a metros dali.

Seu estômago se apertou em um nó. Estava vendo um daqueles raros navios voadores. Era lindo. As velas, muito brancas, eram decoradas com um belo dragão vermelho com adornos dourados. Conhecia bem aquele símbolo, não precisava estar perto para ver. Era o símbolo das terras orientais que tanto apareciam em seus sonhos.

Era comum ver navios voando por aí, mas os orientais eram os mais bonitos, elaborados e, diziam os rumores, com melhor armamento. Piratas povoavam os céus e fizeram deles suas casas. Diziam que eram perigosos, que roubavam e matavam. Também não viviam muito. Nunca acreditou muito nisso. 

Desde pequeno sonhava em ser um deles. Voar por todos os céus, navegar pelas nuvens e conhecer o mundo.  Não tivera essa sorte. Era um camponês, com mãos calejadas, preso a terra e ao trabalho. Queria mudar, queria ir para longe. Mas tinha de voltar ao trabalho. Lançando um ultimo olhar desejoso para o céu, pegou a enxada e foi para casa. Um dia ainda seria livre.

* ~ * ~ *

Sentado nas bordas do convés, Shin observava a paisagem mudar lentamente. Gostava das florestas, eram bonitas de se ver de cima. Algumas eram tão perfeitas que pareciam um tapete aveludado. Tinha a impressão que seria muito macio caso pudesse se jogar em cima.  Gostava dos desertos também, ficava impressionado com o seu tamanho, mas eles o entediavam. Porém, o que amava de verdade eram as cidades, o movimento, as pessoas. Imaginava uma historia para cada uma delas. Com um pequeno binóculo, quando necessário, explorava cada canto, ávido por conhecimento. O que estavam fazendo? Como viviam? Nunca tinha pisado fora de seu navio.


- O que está fazendo aí Shin? – A voz grossa e divertida o trouxe de volta a realidade.  

- Só observando um pouco, Yuuta.


Yuuta era um homem grande de pele morena e sorriso bonito. Era um dos marujos mais fortes, por isso sempre estava fazendo os trabalhos mais pesados. Várias vezes ajudara o jovem e franzino Shin a carregar os inúmeros tonéis de um lado para o outro. Sempre que podiam passavam o tempo juntos, eram como irmãos.  

- Você tem feito muito isso ultimamente. – Como o amigo, sentou nas bordas do convés com as pernas para fora.

- Você não cansa de voar?

Yuuta olhou para longe, correndo o rosto vagarosamente, até parar em um pequeno lago. Por uns instantes viu o reflexo do navio e se deteve, era raro ver ele deste ângulo. Também morava ali desde pequeno e dava pra contar nos dedos as vezes que havia descido. Podia entender a frustração do garoto.

- As vezes é bom por o pé no chão, Shin. Mas só para lembrar o quanto é bom voar.   

O garoto não se convenceu e ao invés de olhar a imagem do grande navio se deteve em um pontinho menor, quase invisível, na borda do lago. Percebeu que era uma pessoa e uma onda de inveja o invadiu, desejou do fundo de seu coração poder estar lá embaixo também.

Desde pequeno sonhava em morar em solo firme. Conhecer algo além daquele navio velho e lento. Queria explorar as florestas, percorrer os desertos sentindo a areia queimar seus pés. Gostaria de morar na cidade e fazer muitos amigos. Não tivera essa sorte. Era um pirata, preso a um navio, vivendo de saquear outros infelizes como ele. Queria mudar, queria ir para longe. Mas tinha de voltar ao trabalho. Lançando um ultimo olhar desejoso pulou da beirada para o convés. Prometeu para si mesmo: um dia ainda seria livre. 

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Nota da Autora: 
Olá. Este é meu primeiro conto no Toco de Vela! Espero que gostem!