terça-feira, 25 de setembro de 2012

Futuros de um pretérito

Desenhista, modelo, atriz, professora, escritora, cantora, médica, arquiteta, empresária, psicóloga, publicitária, jornalista, advogada, juíza, designer, historiadora, veterinária, produtora, locutora. 

Todas as palavras estavam arrumadas, metodicamente, uma embaixo da outra com uma estrela colorida na frente.

Precedido por “desejos dois pontos” podia-se ler: mudar o mundo, abrigar todos os animais de rua, acabar com as injustiças, escrever um livro, montar uma banda, fazer um filme, conhecer todos os países e ajudar crianças e velhinhos.

E por último, com letras menores, como se fosse apenas uma observação particular, via-se: Medo de se dedicar a algo e abrir mão das outras coisas.  Queria crescer logo para poder fazer tudo isso.

Leu novamente o papel amarelado em sua mão. Estava guardado junto aos cadernos da quinta série. Nada havia mudado desde aquela época, dez anos atrás. Continuava querendo fazer tudo aquilo e tinha um profundo medo de se dedicar a algo e abdicar dos seus outros sonhos.  Devido a isto, continuava sempre no mesmo lugar, sem fazer nada, com um aperto que consumia todo seu peito e chegava à garganta. O tempo passava e nada tinha feito de sua vida. Queria ser mais jovem para poder fazer tudo isso.

Dobrou cuidadosamente o papel e guardou-o no meio do caderno grande com espiral. O título da redação ainda martelava em sua cabeça: O que quero fazer quando crescer.