sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Naquela noite

Naquela noite em que adentrávamos a madrugada juntos, tive que o deixar cedo. Naquela noite em que as saudades antigas nos abandonaram, e as futuras nos ameaçavam, fugimos do tempo e do espaço. Naquela noite, presente inesperado, tudo seria possível.

A três estávamos, de roupas rotineiras, na varanda de um bar, enquanto uma festa à fantasia esfriava andar abaixo. Há tanto tempo não nos víamos, há tanto tempo nos imaginávamos. Você nos trouxe notícias das terras quentes das mangueiras, e nós, dos cantos frios dos pinheirais. Amadurecera tanto naquele meio tempo, e nós nem sei, apenas que tão distraída estava que nem reparei que meu amor estava ali perto, andar abaixo, ou já na rua.

Apenas com um cinzeiro sem uso à mesa, nos distraímos por horas a fio, ajudando um ao outro a perceber coisas que, distraídos, não notamos. Do trivial ao íntimo, do real ao impossível, exploramos a vida e a morte, recordamos lembranças, concebemos família, filhos e futuros, discutimos educação, da esquerda à direita, libertamos desejos e compartilhamos amor e ideais.

Podíamos ficar assim eternamente, ou ao menos até o momento de sua volta, no alvorecer seguinte. Mas tive que o deixar cedo, porque mulher lá em casa não pode amanhecer ali embaixo, ou lá na rua. Escapou de nós apenas o possível, naquela noite.