terça-feira, 16 de outubro de 2012

Anseio

Os nós dos meus dedos encontravam o braço da cadeira de forma rítmica, acompanhando os batimentos do monitor cardíaco.

Pi...pi...pi

- Você sabe me dizer que horas são? – A voz veio do homem deitado na cama ao meu lado.

Com um pequeno clique abri meu relógio de bolso e observei seu movimento rápido e preciso.  Ele era formado basicamente por cinco círculos, de tamanhos diferentes, girando um sobre o outro. Milhares de números estavam gravados em volta deles, com pequenos ponteiros. Uma completa loucura.
Parei pensativo, analisando o circulo menor à esquerda, e então olhei para o relógio de parede do quarto do hospital.

- Meia noite em ponto, Vincent.

Ele apenas suspirou.  Estava cansado.

- Quer alguma coisa? – Perguntei.

- Tempo.

- Tempo para que? Melhorar?

Uma risada rouca se prendeu na garganta do velho.

- Melhorar eu sei que não vou. Eu queria era tempo para dar uma volta no parque. Estou entrevado nessa cama há oito anos, e o mais longe que eu fui foi a sala de raio x no fim do corredor. E eu sei que vou morrer sem sair dessa cama dura. 

Olhei complacente para o senhorzinho ao meu lado e então encarei novamente o objeto em minhas mãos, o ponteiro estava completando sua volta.

- Pensando bem, talvez eu queira um copo.... – Ele não chegou a completar sua frase. Uma explosão de barulhos seguiu, desde o “piiiiii” interminável do monitor, até enfermeiras afobadas trazendo um desfibrilador, que inutilmente era aplicado no peito do homem, fazendo seu corpo pular e pular seguidas vezes sem resultado.

Levantei calmamente a coloquei meu relógio no bolso.

- Está pronto para ir Vincent?

A figura ao lado da cama estava atordoada, olhando para o próprio corpo. A sensação devia ser péssima.

- Ir para onde? Como você sabe meu nome?

Ah, sempre as mesmas perguntas.

- Vamos para longe, garanto que vai gostar. E eu sempre sei de tudo Vincent.

Ele então abaixou a cabeça, consternado. Por um momento pensei que ele iria se revoltar, como muitos faziam, tentar me bater ou até mesmo voltar para o próprio corpo. Mas a pergunta que veio em seguida me surpreendeu:

- Podemos passar no parque antes?