sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Encontro no café

Fora outro dia corrido, outra egoísta quarta-feira investida na sua carreira. O expediente acabara, mas ainda tinha um encontro no café próximo.

Ali entrando girou a cabeça procurando quem o convidara, mas concluiu que fora o primeiro a chegar. Sentou.

Foi só alguns minutos depois, à mesa, que sua respiração voltou ao normal e sua mente relaxou um pouco. Apenas então, sozinho, sem nada em mente para fazer naqueles inesperados minutos, percebeu há quanto tempo não observava as outras pessoas. Elas estavam ali, ao seu redor, e mal as via.

Na adolescência costumava reparar mais nos pedestres do centro, nos passageiros dos ônibus, nos comerciantes ambulantes e não ambulantes. Às vezes até parava para assistir a um artista de rua. Isso na época em que caminhava e andava de transporte público.

Ali no café, com olhos fatigados por outros usos, mal conseguia olhá-las. Parecia que elas não queriam ser olhadas. Ao notarem seus olhos em sua direção (notavam?) mudavam sua conduta, desviavam o olhar (e se encarassem, sustentassem a troca de olhares?), embaraçavam-se.

Sentia vergonha. Ele. Era tão desconfortável estar sentado sem se ocupar, como quem se despe diante de desconhecidos (de si mesmo?).

Andava tão ocupado, mas arranjara um tempo para este café. Oras, todas as pessoas ali deviam ser ocupadas também, pensou. Cada uma devia ter sua rotina, amigos, família, carreira, sonhos... cada uma tinha uma vida! E havia tanta gente, cada uma com sua pequena vastidão. Como ele...

Mas não, melhor não pensar nisso. Complexo demais. Sua própria vida já lhe bastava.

Bastava?

Afinal, investia numa carreira em que não acreditava, abrira mão de tudo de que gostava, cumpria com um expediente que lhe consumia.

Mas acreditava, ou queria acreditar, que ainda restava algo de bom e de vontade em si. Ainda havia sonhos, ainda havia vida! E tanta gente no mundo.

A moça acompanhada do namorado já agia como se fossem só os dois no mundo. Um senhor de terno e gravata perpassava o olhar pelo local indiferente a pessoas ou coisas. O garçom esperava chamados a um canto. E o diálogo corria. Os olhares também. Assim saiu nu do café.